Poemas e Mensagens - Maria Dolores

    História de um violino

 

Parei, fitando um acervo de sucata

Que iria arder em fogo breve,

Por um fósforo leve,

Que a chama pequena incendeia e consome,

Qualquer montão de peças estragadas,

Mesmo aquelas que trazem doces nomes

De pessoas amadas...

Dentre as centenas de objetos,

Vasos, portões e móveis incompletos,

Cuja a destruição era o destino

Encontrei um violino

Que mais me parecia

Uma relíquia em agonia

No resto de instrumento que ele fora...

De onde procederia

- Perguntei a mim mesma intrigada –

Aquela peça desprezada?

Sob que mão renovadora

Teria sido um dia,

Perfeitamente manejada?

Então aquele traste,

Em rude desconforto,

Falou-me ao coração:

- não lastimes a sorte que me espera.

Quanto anotas no mundo,

Desde o campo relvoso ao deserto infecundo,

Tudo é renovação!...

Eu fui um tronco verde, o mais belo de um horto,

Que mais brilhava ao sol da primavera.

Era visto, de longe, nos caminhos

Em que passasse alguém que amasse

Os pássaros e os ninhos...

Minhas flores vermelhas

Eram a adoração de enxames de abelhas...

Orgulhava-me sim, de ser forte e robusto...

Veio, um dia, porém,

Um homem frio e armado

De serrote e machado

E esfacelou-me os pés, agindo a custo...

Depois, tombei vencido sobre a Terra.

Fui, logo após, levado, serra em serra

Em terrível viagem,

Largado muito tempo ao desprezo e a secagem...

Certa feita, um artesão

De tato delicado, estranho e fino,

Transformou-me em violino

E fui vendido a um moço artista,

Que me deu cordas, vida e coração...

A princípio, chorei com saudades do chão

Em que subia ao firmamento

Na viva emanação do meu próprio perfume,

Entre flores bailando, ante flautas do vento;

Recordava, a chorar, a presença das aves,

Que falavam comigo em cânticos suaves,

Agradecendo a Deus, cada manhã,

A beleza e a alegria da alvorada

Que mais nos parecia uma festa dourada,

A luz do sol nascente...

Mas o artista abraçava-me docemente

E manejando as cordas que me dera,

Fez-me sentir, por fim, o instrumento que eu era...

Muita gente me ouvia,

Embargava de pranto,

Sem que fizesse algo para tanto...

Mães que houvessem perdido algum filhinho,

Ante o poder da morte,

Choravam com saudade e carinho,pondo-se a relembrar

Os sonhos de outro tempo e as canções de ninar...

Muito doente em prece

Pensava em Deus, onde eu me achava,

Sem que eu mesmo soubesse

Explicar a razão...

Notando que tornava as almas que sofriam

Mais consoladas e felizes,

Não mais me lamentei de me haver afastado

Do bosque bem amado

Em que deixara as ultimas raízes...

Depois de muitos anos,

Vi muita desventura e muita dor

Transformando-se em preces ao senhor.

Vendo, enfim, que servia e consolava,

O artista mais me quis,quanto mais me tocava.

Até que, um dia,

O moço enfermo , tremulo e alquebrado

Foi coberto num tumulo fechado...

Então alguém me achou inútil para a vida

E me guardou aqui numa cova escondida,

Á espera da fogueira

Em que eu possa também

Encontrar minha hora derradeira...

Nesse justo momento,

Alguém ateou fogo ao monturo opulento...

E vi outro alguém descer das imensas alturas:

Um moço belo e forte

Que arrancou, de improviso,

A forma do instrumento á labareda e a morte...

E ao colocar no braço o violino refeito

Em matéria de luz,

Dele extraia sons... Era um hino perfeito

Que o fazia esquecer a cinza transitória

Na musica de vida, esperança e vitória...

Então, eu me lembrei de vós, médiuns amigos!

Entregai-vos ás mãos dos artistas do Bem,

Que eles façam em vós a música do Além.

E, um dia,

Qual se fosseis despregados,

Por trastes relegados

Ao frio dos museus,

Braços de amor virão

Para traçar convosco o Novo Dia

Que trará para os homens

O Caminho de Luz da Perfeita Alegria,

Entre a benção de paz e a proteção de Deus.

 

Maria Dolores

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