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Matéria
publicada no Jornal Mundo
Espírita - outubro/2003
O Evangelista
Lucas a ela se refere em
duas oportunidades, em seus
apontamentos. A primeira, no
capítulo 8:1-3: “...e
andavam com ele os doze, e
algumas mulheres que tinham
sido livradas de espíritos
malignos e de enfermidades:
Maria, chamada Madalena, da
qual tinham saído sete
demônios, e Joana, mulher de
Cusa, procurador de Herodes,
e Susana...”
A segunda, no
capítulo 24, onde a
identifica como uma das
mulheres que, vindo da
Galiléia com Jesus, tendo
observado que o Seu corpo,
ao ser descido da cruz, fora
simplesmente envolvido num
lençol e depositado no
sepulcro aberto na rocha,
cedido por José de Arimatéia,
preparou aromas e bálsamos
e, no primeiro dia da
semana, foi ao sepulcro.
Ao chegar, em
companhia de outras
mulheres, entre as quais,
Madalena e Maria, mãe de
Tiago descobriu a pedra do
sepulcro revolvida.
Adentrando o
local, foram surpreendidas
por dois homens com vestes
resplandecentes que lhes
informaram que Jesus não
mais estava ali, pois que
ressurgira, ressuscitara.
Retornaram a
Jerusalém, entre o assombro
e a ansiedade, a transmitir
as novas aos apóstolos e
discípulos.
O espírito
Humberto de Campos1 a ela se
refere como uma mulher de
muitas posses, que tinha a
seus serviços inúmeras
criadas, que a serviam com
zelo. Desfrutava, ao tempo
de Jesus, de privilegiado
nível social, em Cafarnaum.
Casada com um
alto funcionário de Herodes,
Joana era das mulheres mais
altamente colocadas na
sociedade de Cafarnaum.
Atraída pelo
verbo eloqüente de Jesus,
passou a ouvir as pregações
do lago. Denotando a nobreza
de caráter, vestia-se de
forma simples, a fim de não
atrair a atenção do povo
para si.
Desejava
beber da água viva de que
Ele falava. Trazia no
coração uma infinidade de
dissabores. Possuidora de
verdadeira fé, amargurava-se
pela posição do esposo.
Intendente de
Herodes, em contato
constante com os
representantes do Império, a
fim de gozar do prestígio
social, ele ora comparecia
ao Templo de Jerusalém, ora
sacrificava aos deuses
romanos.
Joana possuía
verdadeira fé. Tentara expor
ao marido a sua nova crença,
em vão. Trazendo a alma
torturada, pelos tantos
dissabores domésticos, certa
vez procurou o Mestre para
lhe falar das suas lutas e
desgostos, no lar.
Jesus a ouviu
longamente e depois
ponderou: “Joana, só há um
Deus, que é o Nosso Pai, e
só existe uma fé para as
nossas relações com o Seu
amor. Todos os Templos da
Terra são de pedra; eu venho
, em nome de Deus, abrir o
templo da fé viva no coração
dos homens.”
Por fim,
Jesus lhe recomenda que
volte ao lar e ame o seu
companheiro, despedindo-a
com um “Vai, filha!...Sê
fiel!” Uma inflexão de tal
carinho, que ela jamais
haveria de esquecer.
Retornou ao
lar e transformou todas as
suas dores num hino de
triunfo silencioso em cada
dia. Procurou esquecer as
características inferiores
do marido, enaltecendo o que
ele possuía de bom.
Um filho veio
lhe enriquecer os dias e os
anos passaram. Perseguições
políticas e reveses se
abateram, finalmente, sobre
o ex-intendente Cusa.
Perdendo seu prestígio,
envolvendo-se em dívidas
insolváveis e amargurado,
enfermou gravemente.
Numa noite de
sombras, ele voltou ao plano
espiritual. Joana que tudo
suportara até então, viu-se
a braços com as dificuldades
mais acerbas.
Ela, que
possuíra a seu comando
tantas servas, necessitou
procurar trabalho para se
manter e ao filhinho, embora
as observações acres de
amigas. Fiel a Jesus,
recordava que Ele também
havia trabalhado, modelando
a madeira, na modesta
carpintaria. Ele, o Divino
Mestre.
Desta forma,
se dedicou aos filhos de
outras mães e afazeres
domésticos em casa alheia,
provendo as suas e as
necessidades do filho. Anos
mais tarde, a bordo de uma
galera romana, ela
demandaria à capital do
Império.
Nos anos 54 a
68, o Império romano foi
governado por Lúcio Domizio
Enobardo, que a História
imortalizou com o nome de
Nero. Dentre tantas
loucuras, como o esbanjar
sem limite o dinheiro
público, organizar orgias
extravagantes, desencadeou
grandes perseguições aos
cristãos.
Segundo
crônicas do historiador
latino Tácito, fiéis do
Cristo, amarrados, cobertos
de alcatrão, eram usados
como tochas humanas para as
insônias de Nero, nos
passeios noturnos nos
jardins da sua residência
privada, a Domus Áurea (Casa
Dourada), no Monte Aventino.
Ao comando da
sua maldade, tendo acusado
os cristãos de terem ateado
fogo a Roma, foram
executados de 200 a 300 mil.
No dia 27 de
agosto de 68, nas
proximidades das águas
termais de Caracala, no
Monte Aventino, Joana, junto
a outros 500 cristãos, foi
levada ao poste do martírio.
De cabelos nevados, ela ouve
as queixas de um homem novo,
amarrado ao poste próximo.
É seu filho
que exclama, entre lágrimas:
“Repudia a Jesus, minha
mãe!... Não vês que nos
perdemos?! Abjura!...por
mim, que sou teu filho!...”
(2)
As lágrimas
acodem aos olhos daquela
mulher. Pela sua mente,
passam rapidamente as cenas
de sua juventude, os
primeiros anos do casamento,
os dissabores, as alegrias
da maternidade, as lutas, a
viuvez, as necessidades mais
duras.
Lembra de
Maria, mãe de Jesus, que
assistira, por horas, o
suplício do seu amado filho.
Por fim, acode-lhe à
memória, a tarde memorável
do particular encontro com o
Mestre e suas palavras de
despedida: “Vai filha! Sê
fiel!” (3)
E pede ao
filho que se cale,
conclamando-o à fidelidade a
Deus. As labaredas lhe
lambem o corpo e ela abafa,
no peito, os gemidos. A
massa de povo grita,
desvairada.
Um dos
verdugos se aproxima dela e
lhe pergunta, irônico: “O
teu Cristo soube apenas
ensinar-te a morrer?” (4)
A resposta,
corajosa, se deu num
murmúrio: “Não apenas a
morrer, mas também a vos
amar!”
E sentindo
uma mão suave a lhe tocar os
ombros, escutou a voz
inconfundível do Divino
Pastor: “Joana, tem bom
ânimo! Eu aqui estou!” (5)
Triunfante,
ela transpôs o pórtico da
morte para adentrar na
verdadeira vida.
Bibliografia:
01.Evangelho
de Lucas, 8:1-3 e 24:1-10.
02.RENAN,
Ernest. Os discípulos de
Jesus. In:___. Vida de
Jesus. São Paulo: Martin
Claret, 1995. cap. 9.
03.SCHUBERT,
Suely Caldas. Joanna além do
tempo. In:___. O semeador de
estrelas. Salvador: LEAL,
1990. cap. 2.
04.XAVIER,
Francisco Cândido. Joana de
Cusa. In:___. Boa nova. Pelo
espírito Humberto de Campos
8. ed. Rio [de Janeiro]: FEB,
1963. cap. 15.
05.______. A
mulher ante o Cristo.
In:___. Religião dos
espíritos. Pelo espírito
Emmanuel. 4. ed. Rio[de
Janeiro]: FEB, 1960. |