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IVAN, CARÁTER
PESSOAL, ATUAÇÃO EM FAMÍLIA
Ivan Santos
de Albuquerque nasceu em
Brotas, Estado de São Paulo,
no dia 16 de janeiro de
1918, filho de Romeu Vieira
de Albuquerque e Laura
Santos de Albuquerque.
Duma família
de quatro filhos, além de
Ivan, contam Cyro Santos de
Albuquerque, Sônia de
Albuquerque Miller e Laura
Santos de Albuquerque
Doretto.
Sendo uma
família muito feliz e
extremamente unida,
receberam os filhos os mais
notáveis exemplos de
grandeza e de amor dos pais
dedicados.
O mais velho
dos filhos, Ivan mostrou-se
um Espírito terno, bondoso,
solidário, transmitindo para
todos a sua envolvência
afetuosa.
Preocupava-se
demais com a juventude. Onde
ele podia, levava sua
palavra, sua mensagem para
que a juventude não fumasse,
não bebesse, que fosse dócil
para com seus pais e digna
perante a vida.
Fez seus
primeiros estudos em
Piracicaba, no Colégio
Piracicabano. Mais tarde, em
virtude de reveses
financeiros da família, foi
para o Ginásio Estadual,
cursando só até o quarto ano
ginasial, agora já em
Bebedouro, para onde
transladara-se toda a
família, numa época em que o
curso ginasial se estendia
até o quinto ano.
Desde o
verdor dos anos, bem menino,
apresentava inúmeras
habilidades manuais. Tinha
pendores para construir
brinquedos de vários tipos,
com os quais contemplava
irmãos e amigos.
Confeccionava flores
artificiais de farinha de
trigo com tinta, como de
papel, presenteando sempre a
sua mãe, por quem vibrava
com grande afinidade.
INICIAÇÃO
ESPÍRITA DA FAMÍLIA
Ivan nasceu
num lar espírita.
Tanto sua mãe
quanto seu pai vieram de um
lar católico. Seus bisavós
maternos faziam parte da
Ordem do Carmo. O bisavô era
homem de confessar-se e
comungar diariamente.
Tendo D.
Laurinha casado muito jovem
com o Sr. Romeu, este jamais
se opõs a que ela lesse
livros espíritas,
considerando que desde os
seus treze anos tinha idéias
espiritualistas bastante
acentuadas.
Certo dia, um
primo que administrava a
fazenda do Sr. Romeu, uma
vez que morava na fazenda,
perguntou a D. Laurinha o
que ela queria que lhe fosse
trazido de Brotas e ela
respondeu que queria um
livro espírita, sugerindo
que lhe fosse comprado “O
Livro dos Espíritos “ ou “ O
Evangelho Segundo o
Espiritismo”. A partir daí,
entrou decidida no estudo e
na vivência do Espiritismo.
Os dois primeiros filhos,
Ivan e Cyro, ainda foram
batizados, mas as duas
filhas seguintes, já não o
foram.
RENÚNCIA E
PROFISSÃO
Quando Ivan e
Cyro já se encontravam no
quarto ano do curso
ginasial, o Sr. Romeu, seu
pai, teve que enfrentar
seríssimo contratempo
econômico, ficando
impossibilitado até mesmo de
manter no estudo os dois
filhos.
Ao serem
participados das graves
dificuldades surgidas, Ivan
tomou a iniciativa de, sendo
o mais velho, renunciar aos
seus estudos, em favor do
irmão. Ivan começou, então,
a trabalhar como enfermeiro,
no Hospital Esperança, em
São Paulo, na Rua dos
Ingleses, de propriedade do
Dr. Bernardes que era
conceituadíssimo médico de
Campinas e exerceu a direção
desse Hospital durante
muitos anos. Ali, Ivan
conseguia os recursos
necessários para sua
subsistência e enviava para
o irmão, Cyro, então em
Piracicaba, parte dos seus
vencimentos, a fim de que
ele pudesse concluir seu
curso na Escola Superior de
Agricultura Luiz de Queiroz.
No Hospital
Esperança, ele exercia a
enfermagem com aquela mesma
dedicação, servindo aos
doentes e, sendo solteiro e
não afeito a festas ou
teatros e mesmo cinemas,
ficava todas as noites no
próprio Hospital, visitando
os doentes, conversando com
eles, assistindo-os.
ALGUMAS DE
SUAS AMIZADES
Muitíssimo
amigo de Cairbar Schutel,
mantinha com ele freqüente
correspondência, admirando-o
muito por suas qualidades de
nobre vulto da divulgação
espírita nas terras de
Matão. Admitia que, para
ele, Ivan, fazia-se
importante manter aquele
grandioso contato de
amizade, como com outras
criaturas que ele sabia
poderiam enriquecer o seu
trabalho, pela experiência,
pelos felizes
empreendimentos dessas almas
pelo Espiritismo.
Além de
Cairbar Schutel, foi muito
amigo do prof. José
Herculano Pires, junto com
quem Ivan esteve, proferindo
palestras em Marília, poucas
horas antes da sua
desencarnação.
Pessoas como
Dr. Costa Neto (diretor de
Departamento de uma das
Secretarias de Estado do
Estado de São Paulo), Dr.
Júlio Prestes, D. Benedita
Fernandes (abnegada e
veneranda lidadora do
Movimento Espírita na região
de Araçatuba) e Jésus
Gonçalves (notável
trabalhador da Seara
Espírita, marcado pela
hanseníase, que muito atuou
junto aos seus irmãos de
infortúnio) estiveram
banhados pela enternecida e
cara amizade de Ivan de
Albuquerque.
Era alguém
que fazia amigos com muita
facilidade, apesar de ser
uma pessoa diferente, que
não tinha muita conversa em
torno das coisas materiais,
estando mais voltado para os
interesses espirituais, o
que não o tornava antipático
e fechado. Adaptava-se às
necessidades e
possibilidades das pessoas
que com ele conviviam.
Falava com
muita firmeza, com muita
propriedade, sobre os
assuntos espirituais, mas,
também, sentia imensa
alegria em estar no meio dos
pequeninos, dos sofredores,
dos enfermos, dos que
necessitavam dele e, com
isso, ele fez muitas
amizades.
JESUS E
ESPIRITISMO
Desde
pequeno, Ivan demonstrava
ser um Espírito com muitos
predicados morais, muito
desenvolvido. Através dos
anos foi-se sobressaindo
cada vez mais. Quando chegou
aos dezesseis anos, mostrava
um grande amor pelo
Espiritismo. Começou a
estudá-lo, profundamente, e,
nesta idade, detinha
conhecimento da luminosa
Doutrina. Parecia estar
muitos anos à frente, com a
bagagem, formidável que
levava.
Tudo o que se
referia ao Cristo e ao
Espiritismo ele sabia na
ponta da língua. Eminente
doutrinador, desde antes dos
vinte anos proferia
palestras em todos os
lugares, onde era convidado,
tendo viajado em pregação
por inumeráveis cidades do
interior paulista.
DO CONGRESSO
EUCARÍSTICO AO JUQUERI
A família
acabava de fixar residência
em Sorocaba, tendo vindo de
Araçatuba, onde morara. Lá
ia o ano de 1942. Pouco
depois de instalados, tinha
lugar em São Paulo, o
Congresso Eucarístico. Ivan,
tomado pelo entusiasmo e por
seu destemor, quando se
tratava de falar do Cristo e
do Espiritismo, saiu a
distribuir, por entre o
povo, boletins e volantes de
propaganda espiritista.
Nessa faina, foi preso sem
que ninguém soubesse do seu
paradeiro, o que provocou
uma onda de ingentes
sofrimentos em toda a
família. Os pais,
particularmente sofreram
muito mesmo.
Depois de
dois dias tenebrosos, a
família logrou localizá-lo.
Tinha sido levado para o
Juqueri. (Hospital
Psiquiátrico do Governo do
Estado de São Paulo, situado
no município de Franco da
Rocha, na Grande São Paulo.)
Essa
localização de Ivan
efetuou-se graças à
interferência de um parente
muito caro, o Sr. Luiz
Duarte da Costa, que
mantinha boas relações de
amizade com delegados e
outras pessoas influentes
que saíram à procura do
jovem desaparecido, uma vez
que ele já tinha sido
procurado em hospitais e em
delegacias, sem ser
encontrado.
Preso e
levado para o Juqueri, não
obstante encontrar-se em
profundo abatimento físico,
muitíssimo esgotado e com a
cabeça raspada, durante todo
o tempo em que ali esteve,
dedicou-se a falar aos
enfermos, pregando os
ensinamentos de Jesus e do
Espiritismo, confortando e
ajudando tanto quanto pôde.
Nos seus bolsos foram
achados, ainda, vários
boletins e volantes de
divulgação espírita.
Jamais tal
episódio o desalentou, nem
fê-lo atuar menos ou
medrosamente nas atividades
do Movimento Espírita, no
qual aplicou o melhor dos
seus recursos.
COM OS
HANSENIANOS
Junto aos
irmãos portadores da
hanseníase, Ivan era
simplesmente maravilhoso.
Domingo sim, domingo não,
dedicava-se a visitar os
doentes. Freqüentava o
Sanatório de Pirapitingüi,
onde costumava almoçar com
os internados, fazendo
limpeza nas feridas daqueles
pobres orações.
Inúmeras
vezes o diretor do
Sanatório, amigo da família,
Dr. Francisco Arantes,
chegava a visitar-lhe o lar
e conversar com o pai,
dizendo: “Seu Romeu, seu
filho não pode fazer o que
ele faz. Almoçar com os
doentes, beber água do mesmo
copo... Afinal de contas, o
Sr. tem uma família, tem
filhas. Não desejo proibir a
entrada dele lá, mas ele não
pode continuar fazendo essas
coisas.”
Então, Seu
Romeu, pessoa muito bondosa,
muito querida, homem que,
também ele, dedicou grande
parte da sua vida ao
próximo, pois foi
devotadíssimo em conseguir
empregos para os seus
semelhantes, em Sorocaba,
costumava chamar Ivan e
dizer-lhe: “- Meu filho, não
faça isso. Você não pode
fazer o que faz lá, no
Sanatório. Lembre-se que
você tem uma família, tem
irmãs... O Dr. Arantes veio
aqui em casa e disse que,
logo mais, terá que
suspender as suas entradas
lá porque você não pode
fazer como vem fazendo.”
Invariavelmente, o devotado
jovem respondia da mesma
maneira: “-Papai, não há
perigo nenhum! Nós todos
temos as nossas provas. O
que tivermos que passar,
ninguém passará por nós. E,
nesta reencarnação, eu sei
que não vou ser atingido por
essa doença, nem vou
transmiti-la a ninguém de
minha casa.”
Continuava,
assim, sua vivência no meio
dos doentes. Era amado pelos
hansenianos. Jésus Gonçalves
tinha por ele imensa
admiração, no que era
retribuído por Ivan, assim
como D. Ninita, esposa do
Jésus. Para todos era um dia
de festa quando o jovem Ivan
estava entre eles.
Ivan gostava
de participar das
festividades do Sanatório,
alegrando-se com os
internos. Não obstante fosse
um Espírito sóbrio e
enobrecido, tinha suas
brincadeiras engraçadas,
pois gostava muito de
brincar, particularmente com
seus pais e suas irmãs.
Manteve-se visitante
freqüente do Sanatório de
Pirapitingüi até a sua
desencarnação.
COM OS
DOENTES, OS VELHOS E OS
PRESIDIÁRIOS
O jovem Ivan
de Albuquerque era pessoa
que tinha piedade de todo
mundo. Se tinha dois ternos,
doava um. O que detinha,
gostava de passar às mãos do
seu próximo.
A sua bondade
era sem tamanho.
Preocupava-se muito com os
velhinhos. Freqüentava o
Asilo dos Velhos e ficava
empolgado. Fazia palestras
para os idosos, atendia
aqueles que portavam
doenças, achaques, aqueles
que careciam de tratamento
espiritual ou de uma oração.
Para ele não havia horário,
nem obstáculo para levar uma
mensagem de esperança a toda
essa gente.
Um domingo
sim, outro não, em companhia
de sua mãe, D. Laurinha,
Ivan visitava a cadeia
pública de Sorocaba. Os
presos gostavam muito de sua
visita, pelo seu jeito bom,
sua atenção, suas
orientações gerais, ocasião
em que lhes pedia para que
lessem, sempre, “O Evangelho
Segundo o Espiritismo”, pois
que costumava distribuí-lo
com os detentos.
Muito afinado
com sua genitora, Ivan
conseguia manter com ela os
exercícios de telepatia,
seguindo sempre muito
juntos, muito unidos,
entendendo-se, de modo
formidável. Assim, os dois
envolviam-se notavelmente
nessas tarefas, nas quais
fortaleciam, mais e mais, a
espiritual vinculação.
Ainda
relativamente ao seu carinho
pelos velhinhos, vale
lembrar que, quando saía
para o seu serviço
profissional, estava sempre
atento para ver se algum
idoso desejava atravessar a
rua, a fim de correr, pegar
nos seus braços e atravessar
junto.
A família
tinha, continuadamente, um
ou dois doentes que ficavam
meses e meses em sua casa.
Ivan os levava.
Durante a
época em que existiu a
úlcera de Bauru (ferida
provocada pelo protosoário
do gênero Leishmania, em
razão da deficiência
sanitária que se tornou
muito comum nas regiões de
Bauru, quando, pelos anos
40, iniciou-se o avanço
territorial, com o
desmatamento. A Úlcera de
Bauru é a mesma Leishmaniose
Tegumentar Americana.), o
adorável Ivan, com todo
carinho, banhava os doentes,
diariamente, tratando das
suas feridas, fazendo os
curativos, com grande amor.
Dava comida na boca dos
doentes, penteava-lhes os
cabelos e sentia efusiva
alegria, dizendo para sua
mãe: “- Mas, é tão pouco,
mamãe!”
“Filho, você
não está cansado?”
perguntava-lhe D. Laurinha,
percebendo o esforço e o
devotamento do seu filho. E
ele voltava, afirmando: “-
Mãe, é tão pouco o que estou
fazendo! Isto não é nada,
imagine, mamãe! Sou jovem,
tenho bastante energia...” E
assim foi todo o tempo em
que viveu na Terra, tendo
sempre muito gente à sua
volta; viandantes, pessoas
que nunca foram conhecidas
da família, anteriormente.
Além de tudo, ele as levava
para a Santa Casa, fazia-as
passar pelos exames
clínicos, radiográficos,
providenciando o necessário
tratamento, para esses
doentes.
Recolhendo em
sua casa esses enfermos,
juntamente com sua mãe, Ivan
os atendia com especial
carinho, fossem velhos ou
jovens, sem jamais
inquietá-los com perguntas
quaisquer, chegando muitos a
desencarnar em seu lar,
demonstrando a beleza da
missão de amor ao semelhante
para a qual viera ao mundo.
MAIS UMA AÇÃO
SOCIAL
Numa época em
que exercia suas atividades
profissionais em Itaberá, em
Itaporanga e em Coronel
Macedo (cidades do interior
do Estado de São Paulo, ao
sul), dadas as dificuldades
com que certos lavradores
viviam, muito modestos, sem
conseguirem garantir sua
própria subsistência, Ivan
fundou com eles um
verdadeiro mutirão, um
trabalho coletivo, por meio
do qual explorariam a
agricultura, dentro de
certos modelos. Conseguiu,
dessa forma, a colaboração
de alguns fazendeiros
maiores, com máquinas
agrícolas, equipamentos, e o
que mais fosse necessário.
Durante os
dois anos em que ali,
naquela região, esteve, pôde
assistir, diretamente, a
essa comunidade, que
prosperou, evidentemente,
graças aos resultados
comunitários desse trabalho.
ESPÍRITO DE
SERVIÇO E DESPRENDIMENTO
Quando Ivan
prestava serviço na
profilaxia da malária, no
município de Itaporanga, ao
sul do Estado de São Paulo,
serviço este que era
dependência da Secretaria de
Saúde naquela região que,
evidentemente, contava com a
moléstia, em caráter
epidêmico, deu-se um
episódio muito curioso e
bonito, atestando o seu
abnegado espírito de serviço
e o despojamento com relação
a si mesmo.
Certo dia,
durante suas atividades,
Ivan soube que havia, do
outro lado de um rio,
possivelmente o denominado
Rio Verde, uma senhora que
estava sem assistência e em
vias de dar à luz uma
criança.
Alguns
caboclos o procuraram
apreensivos, no sentido de
que ele, que tinha certa
prática de enfermagem,
pudesse atendê-la.
Imediatamente, graças ao seu
espírito solidário,
altamente solidário,
prontificou-se a ir. No
entanto, como no momento as
embarcações que ali
costumeiramente estavam a
postos navegavam rio abaixo,
não havia outra forma de
atender à mulher senão
atravessando a nado esse
rio. Incontinenti, o fez.
Sendo ele um bom nadador,
pois que, desde a sua
infância, acostumara-se às
águas do Rio Piracicaba,
onde aprendeu a natação e a
exercia freqüentemente, não
lhe foi difícil o
empreendimento.
Atravessou o
rio, foi ao local e fez o
parto, tendo solicitado o
material indispensável
naquela conjuntura, como uma
bacia com água quente, panos
e trapos, etc. Estava feliz
por ter sido útil.
Na semana
seguinte, ele foi acometido
por uma gripe fortíssima com
ameaça de pneumonia. Foi
preciso recorrer, naquele
tempo, quando não existia a
penicilina, a produtos
químicos para que se pudesse
impedir o desenvolvimento da
gripe a e a infecção
pulmonar.
VALOR E
SIMPLICIDADE
Enquanto
trabalhava no Hospital
Esperança, cuidando com
muita atenção dos mais
variados internos, nas suas
horas além das obrigatórias,
Ivan teve ensejo de travar
contato com o Dr. Júlio
Prestes de Albuquerque que
se achava em tratamento. O
Dr. Júlio Prestes, como era
conhecido, foi presidente do
Estado de São Paulo, eleito
presidente da República e
não empossado; foi acometido
de uma infecção renal grave
e ali fora para submeter-se
a uma cirurgia. E Ivan, como
fazia, sistematicamente, com
todos os doentes, passou a
assisti-lo também. Fê-lo de
tal modo que numa certa
noite, quando o Dr. Prestes
já estava quase por deixar o
Hospital, indagou ao jovem
enfermeiro: “- Ivan,, você é
Albuquerque?” “Sim!”,
respondeu Ivan. E,
prosseguiu Dr. Prestes: “-
Quem sabe não sejamos
parentes, porque também eu
sou Albuquerque, sou Julio
Prestes de Albuquerque?”
Então, respondeu-lhe Ivan:
“- Olhe, Dr. Júlio, eu me
sentiria muito honrado se
fosse seu parente, mas acho
que não o sou porque o meu
Albuquerque é de Brotas e o
seu é daquela região de
Itapetininga. Para mim seria
muito gratificante.” Nisto,
retoma a palavra o velho
político: “- Ivan, se você,
alguns anos atrás, tivesse a
pretensão de ser meu
parente, naquela ocasião em
que eu militava na política
e me sentia como uma árvore
frondosa, onde os viajantes
paravam para ter a sua
sombra, onde os pássaros
faziam seu ninhos e onde os
viandantes comiam os seus
frutos, poderia até fazer de
você um juízo indevido, de
uma pessoa
político-interesseira,
porque eu vivia cercado de
políticos interesseiros...
Mas, hoje, quando eu já me
encontro no ocaso da vida,
sentindo-me agora uma árvore
seca, onde os pássaros não
fazem os seus ninhos, onde
os viandantes não têm nem
frutos, nem sombras, eu é
que ficaria muito
envaidecido e muito honrado
se fosse seu parente. No
conceito dos homens, Ivan,
você é realmente uma
criatura de profundo
espírito cristão; alguém
desprendido de vaidades e de
ambições, uma pessoa que
tem-se conduzido por um
afeto, por uma amizade, por
um calor humano que jamais
conheci, durante toda a
minha existência...”
CURIOSO CASO
DE PREMONIÇÃO
Nas conversas
domésticas, todas as vezes
em que o velho Romeu
abordava Ivan, em torno da
importância da formação de
uma família, tendo-se em
conta que o jovem filho era
de compleição física
saudável, dono de suave
harmonia de formas, com uma
voz muito bonita e invejada,
sendo muito querido das
jovens que o assediavam, à
época, naturalmente
aguardando alguma chance,
Ivan lhe respondia dizendo:
“- Nesta encarnação, não vim
para constituir família
porque vou partir muito
cedo.” Dizia-o com tal
tranqüila certeza que sua
mãe, tocada pela alusão, lhe
contestava: “- Meu filho,
não repita isto, porque não
sei se terei estrutura,
embora o meu conhecimento da
Doutrina, para perder um
filho...”
A alma
notável do jovem pregador,
no entanto, “sabia”, do
fundo d´alma, com aquela
certeza subjetiva dos
Espíritos lúcidos, que não
chegaria aos trinta anos de
idade, conforme o apregoou
diversas vezes.
A família
tinha em casa uma cabra
chamada Esmeralda. Era
tratada com imenso carinho e
cuidados por Ivan.
Diariamente, em torno das
seis horas da manhã, Ivan
costumava levar um copo de
leite da cabra para os seus
pais e para cada uma das
irmãs.
Certo dia,
numa época em que Ivan
estava viajando, um dos seus
amigos mais chegados,
Waldemar Telles, muito
nervoso, muito preocupado,
dirigiu-se ao Sr. Romeu e
disse-lhe:
“- Seu Romeu,
eu tenho uma notícia
horrível para lhe dar.”
“- O que foi,
Waldemar, diga? O que foi
que aconteceu?”, - atalhou o
pai.
“- O Ivan
morreu!” – respondeu
Waldemar.
“-Como!? Não
é possível uma coisa
dessa...”
Waldemar se
recompôs e disse, envolto
num sorriso muito pálido: “-
Estou brincando, foi a
Esmeralda que morreu; a
cabra...”
Passados três
dias, o trem pegou, de fato,
a cabra Esmeralda e ela veio
a falecer.
Nesse
ínterim, retorna Ivan de sua
viagem e ficou muito triste
com a notícia da morte de
Esmeralda...e, passado algum
tempo, ele veio a perecer,
como Esmeralda, num desastre
de trem...
DESENCARNAÇÃO
E RESGATE
Toda a vida
de Ivan de Albuquerque foi
dedicada a uma causa: à
Causa do Espiritismo, à
pregação, à solidariedade
humana. A vida tem desígnios
que quase nunca conseguimos
alcançar. Ninguém poderia
esperar que uma criatura
sempre preocupada com os
destinos e a vida não só de
seus familiares, mas de
todos aqueles que o
cercavam, tivesse em sua
programação de saída da
Terra, uma desencarnação tão
trágica como teve o nosso
personagem.
Começava o
mês de abril de 1946, em
plena quadra outonal, quando
o amorável Ivan, que a esse
tempo vivia com seus pais,
em Sorocaba, viajou para
Marília, também interior
paulista, a fim de proferir
palestras, atendendo aos
seus labores de pregador.
Atendidas as
tarefas de Marília,
desenvolvidas com a mesma
inspiração de sempre, com a
mesma simpatia e com a
contínua objetividade e
clareza de argumentação, um
amigo seu, residente em
Tupã, instou para que ele
fosse repetir a mesma
palestra, realizada em
Marília, na sua cidade.
Embora ele
tivesse compromissos em
Sorocaba, não resistiu aos
insistentes apelos do seu
amigo e partiu para Tupã,
numa composição ferroviária.
Não poderia supor o nosso
jovem sanitarista que havia
soado o momento da
libertação, ultrapassada a
porta estreita dos deveres
nobremente executados, numa
juventude formosa e radiosa,
vivida com entusiasmo e
extrema consciência da
responsabilidade.
Quando
estavam chegando nas
proximidades de Pompéia,
cidade intermediária entre
Marília e Tupã, conversando
com o companheiro que o
convidara e o acompanhava,
disse-lhe Ivan: - “Veja só,
nasci numa fazenda de café e
nunca tive a oportunidade de
observar um cafezal tão
bonito, tão vistoso, como
este que estamos observando
pela janela do trem.
Gostaria de observar mais de
perto este lindo cafezal...
E dirigiu-se à porta do
último vagão da composição
férrea, no exato momento em
que tal composição
completava uma curva e
entrava numa reta para
chegar à estação ferroviária
de Pompéia, cinco ou seis
quilômetros depois. Desse
modo, com um movimento de
flexão desse último vagão,
Ivan, já à sua porta, perdeu
o equilíbrio do corpo e
caiu, caiu batendo, ao que
se supõe, no barranco da
margem, tombando, em
seguida, sem sentidos, sobre
os trilhos...
Em Pompéia,
na estação, estava parada
uma outra composição que
deveria dirigir-se a São
Paulo. Tão logo chegou a
composição donde Ivan caíra,
a outra partiu, em razão do
necessário desvio de linhas
que se dera, liberando a
passagem ao comboio de
ferro.
O depoimento
do maquinista, quanto o do
foguista, na delegacia de
Pompéia, dava conta de que
não houve tempo para frear a
composição, tendo, então,
passado por cima do corpo.
Desprendido
do corpo, em razão do
desmaio que sofrera, foi
retirado dali, pelos
Emissários da Luz, seus
Amigos e inspiradores, a fim
de que não se aturdisse com
as cenas, naturalmente
fortes, que se desenrolariam
com o passar do trem sobre o
fardo imobilizado, do qual
se despedia o impoluto
servidor de Jesus.
Era o dia 5
de abril... Cumpria-se a
precognição do próprio Ivan,
bem como a do seu amigo
Waldemar Telles.
Os espíritas
de Pompéia, de Marília e de
Tupã, reuniram-se em
Pompéia, tão logo ficaram
sabendo do acontecimento, e
prestaram todas as
homenagens póstumas ao
querido confrade, ali
desencarnado, em pleno
cumprimento do dever,
disseminando as luzes do
Consolador.
PRIMEIRAS
NOTÍCIAS PÓSTUMAS
Foi por
intermédio da Sra. Laurinha
de Albuquerque, mãe de Ivan,
que era médium escrevente,
que, aproximadamente trinta
dias após o acontecimento,
adveio uma comunicação do
filho sempre amado.
Evidentemente, num estado de
certa angústia, em face da
separação, pelas condições
do desprendimento, mas
explicando e esclarecendo as
circunstâncias todas que
motivaram a desencarnação, o
que logrou, não obstante os
compreensíveis sofrimentos
dos afetos e dos amigos,
confortar a todos, acenando
com as esperanças de
abençoado reencontro, nos
campos da perene Luz.
Do pretérito
comprometido com as Leis
Divinas, Ivan consegue
libertar-se, por meio do
denodado trabalho em favor
do progresso e do bem, com
excelente disposição.
Com seu
trabalho incansável e com
sua disposição de servir e
crescer para o Cristo,
deixa-nos, o notável
Apóstolo do Bem, incontáveis
e fulgurantes exemplos com
os quais a Juventude destes
dias e a porvindoura
encontrarão roteiro e apoio
para a real conquista da
paz, multiplicando as ações
do Mestre Nazareno pelo
mundo, sem temores, sem
entrega aos torpores das
paixões infelizes, avançando
sempre para o Grande Amanhã.
Seus irmãos,
Cyro Santos
de Albuquerque
Sônia de
Albuquerque Miller
Laura Santos
de Albuquerque Doretto
(Cântico da
juventude, J. Raul Teixeira,
ed. FRÁTER) |