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Seu nome era
Dimas. Sentenciado,
aguardava a execução, na
prisão. Graças ao sumário e
vergonhoso julgamento de
Jesus de Nazaré, a execução
foi adiantada, eis que tudo
deveria acontecer antes da
Páscoa judaica.
Arrancado da
prisão, junto a Gestas,
companheiro de loucuras e de
cela, inicia a grande
marcha. Grande, não pela
extensão, pois que do
Pretório de Pilatos à colina
do Calvário vai menos de um
quilômetro. Grande, pelo seu
significado.
Dimas
contempla maravilhado a
Jesus. Ele dormiu à noite,
na prisão. Também foi
alimentado e não tem sede.
O homem de
Nazaré, contudo, está fraco.
Perdeu muito sangue e no Seu
rosto ainda escorrem gotas
vermelhas, saindo das
feridas provocadas pela
coroa de espinhos.
É habitual,
entre os criminosos
autênticos que, em
registrando prisioneiros
inocentes entre eles, dêem
mostras de delicadeza, de
compaixão e de estima, algo
semelhante a um sentimento
de respeito e proteção para
com quem é vítima da
injustiça dos homens.
Este
sentimento é que deve ter
tomado conta de Dimas.
Aquele homem, ele já ouvira
falar Dele, era alguém que
somente semeara Amor em Seu
caminho. Como O podiam
tratar daquela forma?
O Justo
carrega a sua cruz. O
arrependido também. O
primeiro caminha curvado ao
peso do madeiro,
cambaleando, parando, a
respiração opressa e o pulso
acelerado. Dimas se indaga o
porquê de tanto ódio do
populacho que acompanha o
triste cortejo.
Constata que
os soldados de Roma não
estão ali para impedir a
fuga dos três sentenciados.
Encontram-se ali para
defender Aquele que segue à
frente da multidão que O
apupa, grita e gargalha. O
centurião dá ordem aos
legionários para rodearem a
Jesus, a fim de que os mais
exaltados não O agridam.
Os dois
salteadores vão andando,
mais atrás. Apesar dos
insultos e impropérios que
Gestas vai dirigindo aos que
deles se aproximam, o povo
não o apupa. Tudo é dirigido
para Aquele que é
considerado o maior
celerado: Jesus.
A marcha
ascende pelo bairro de Acra.
As pessoas olham das
janelas, pelas esquinas,
pelos terraços. A ladeira
começa a ser vencida, depois
vem a descida.
O lugar do
suplício está próximo: uma
elevação de terreno
calcário, onde uma vegetação
mesquinha mal consegue
disfarçar a nudez das
rochas.
Dimas sente o
sangue gelar nas veias à
perspectiva da morte
próxima. Apavora-se,
igualmente, ao pensar que o
Justo também vai morrer.
Ofertam-lhe,
como a todos os supliciados,
uma taça de narcótico
amargoso, a fim de diminuir
a sensação da dor. A droga
era o sumo das folhas de
híssope.
Enquanto
alguns soldados iniciam a
crucificação de Jesus,
outros realizam a dos
malfeitores. Dimas se debate
e convulsiona, em desespero
e dor, clamando contra a
injustiça. Sua frio e o
coração está em disparada.
O primeiro
prego lhe penetra fundo o
pulso. Ele luta
desesperadamente por se
libertar. Sente vertigens e
tudo gira à sua volta.
Como o tronco
vertical da cruz já estava
em pé, por meio de cordas,
foi suspensa a barra
horizontal com o corpo, e os
pés foram nela cravados.O
anestésico romano aliviava,
mas não extirpava a dor.
Dimas se move sem parar e
quanto mais se movimenta,
mais os pregos roçam as
raízes nervosas dos pulsos e
dos pés.
Ele daria
qualquer coisa para sair
dali. Se tivesse outra
chance, voltaria ao passado
e refaria a vida. Seria o
mais bem comportado de todos
os homens, desde que o
liberassem daqueles cravos
enterrados em suas carnes.
Um letreiro,
acima de sua cruz, indicava
o motivo pelo qual sofria o
suplício. A crucifixão era
um suplício que chegava a
durar 3 dias. As cruzes eram
dispostas em local que
pudessem ser vistas por
todos, pois o objetivo de
Roma era deixar bem claro
que aquele seria o destino
de todo aquele que ousasse
erguer o braço contra a
Águia poderosa.
Dimas está à
direita da cruz de Jesus. Os
soldados repartem entre si
as vestes dos três homens.
Era costume que o
sentenciado fosse levado ao
local da execução com suas
próprias vestes e totalmente
despidos, ao serem
crucificados.As horas que se
seguem são de zombaria e
insulto. Toda a pequenez e a
ignorância humanas se voltam
contra a Luz que morria, sem
um queixume.
Alguns lhe
exigem que desça da cruz e
salve a Si mesmo. Outros lhe
indagam, entre gargalhadas,
onde estão os Seus milagres,
onde se encontra todo o Seu
poder.
Gestas se
contorce e cheio de ódio,
alia-se aos que O insultam,
exclamando:
“Se tu és o
Cristo, salva-te a ti mesmo
e a nós que estamos para
morrer contigo!”
Dimas vira as
costas mutiladas de Jesus,
quando O despiram. Vira o
corpo coberto de hematomas.
Viu um homem fraco e
debilitado. Mas viu muito
mais: Aquele não era um
homem comum. Era um rei,
cujo reino ultrapassava a
compreensão humana.
Jesus não
emitia uma única queixa, nem
revidava nenhum dos
insultos. Ao contrário,
suplicara: “Pai,
perdoa-lhes, porque não
sabem o que fazem...”.
Aquele Homem
era um Rei que venceria a
morte. Ele estava caminhando
para o Seu reino, invisível,
mas real.
Assim, logo
responde Dimas a Gestas:
“Tu te
encontras às portas da morte
e mesmo assim, não te
arrependes dos teus erros?
Ambos sabemos que merecemos
a cruz, porque somos
criminosos. Mas este nenhum
mal fez.”
O criminoso
parece ser tomado por um
clarão de esperança.
Volta-se para o Cristo e
pede:“Senhor! Lembra-te de
mim, quando entrares no teu
reino!”
Ele sentia a
vida se lhe esvair do corpo,
mas deseja viver. Viver em
outra paisagem. Uma paisagem
de flores, onde Jesus é o
jardineiro. Deseja ser uma
das flores a serem tratadas
por quem era capaz de
perdoar os que O
supliciavam. Deseja adquirir
aquela serenidade e paz que
manifesta o Homem que se
encontra na cruz do meio.
A resposta de
Jesus foi instantânea. Não
foi preciso que Dimas lhe
confessasse as mazelas. O
Mestre da Vida o acolhe:
“Dimas, na
verdade te digo que hoje
mesmo estarás comigo no
paraíso!”
Ao longo dos
séculos, as pessoas se têm
indagado que Paraíso seria
esse. Naturalmente, não o
Paraíso das delícias, pois
que Dimas tinha um passado a
expiar. Desejava se
reformular, é isso que o seu
pedido exprimia. E Jesus lhe
diz que o conseguirá.
Não fora Ele
mesmo que acenara com a
bem-aventurança aos aflitos,
porque seriam consolados?
Jesus lhe
afirmava que, após a morte,
o espírito prosseguiria
perseguindo a felicidade,
numa nova rota, segundo a
Lei de Justiça e Amor de
nosso Pai.
Os condenados
agonizam devagar. O peso do
corpo distende os tecidos,
ampliando os rasgões da
carne. O corpo estremece em
arrepios. Os dedos se
agitam, o tórax se projeta
para a frente, salientando
os arcos das costelas.
Dimas vê
Jesus dobrar a cabeça,
enterrar o queixo no peito e
dizer:
“Tudo está
consumado!”
Era a hora
nona, ou seja, três horas da
tarde. Seis horas na cruz e
Ele se fora.
O suplício de
Dimas prossegue.
Segundo as
leis judaicas, e que o
governo romano respeitava,
os corpos dos sentenciados
não deveriam ficar suspensos
no patíbulo durante a grande
solenidade pascal, que
começava ao pôr do sol da
sexta-feira.
Por isso, uma
embaixada foi ao Pretório
rogar a Pilatos que mandasse
retirar os corpos dos
crucificados. Para os
atender, o Procurador da
Judéia ordenou que os
soldados fossem ao Gólgota,
com malhos pesados e
quebrassem as pernas aos
prisioneiros,
apressando-lhes a morte.
Assim foi
feito aos dois criminosos,
Gestas e Dimas. Este,
adentrou à Espiritualidade
com disposição de retificar
os seus erros e, conforme a
promessa que Lhe fizera o
Cristo, descobriu o Paraíso
do desejo do Bem, da
ensancha de lutar para ser
melhor, até alcançar a
Perfeição.
Bibliografia:
01.BÍBLIA,
N.T. Mateus. Português.
Bíblia Sagrada. Tradução de
João Ferreira de Almeida.
Rio de Janeiro: Imprensa
Bíblica, 1966. cap. 27, vers.
38.
02.______.
Lucas. Op. cit. cap. 23,
vers. 32, 39-43.
03.______.
João. Op. cit. cap. 19, vers.
18, 31-34.
04.CURY,
Augusto. A 3ª hora: cuidando
de um criminoso e vivendo o
maior dos sonhos. In:___.O
mestre do amor. São Paulo:
Academia de Inteligência,
2002. cap. 8.
05.ROHDEN,
Huberto. A crucifixão.
In:___. Jesus Nazareno. 6.
ed. São Paulo: União
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188.
06.______. A
sepultura de Jesus. Op. cit.
pt. 3, cap. 190.
07.SALGADO,
Plínio. A grande marcha.
In:___. Vida de Jesus. 21.
ed. São Paulo: Voz do Oeste,
1978. pt. 5, cap. LXXIII.
08.______.
Consumatum est! Op. cit. pt.
5, cap. LXXV.
09. XAVIER,
Francisco Cândido. O bom
ladrão. In:___. Boa nova.
Pelo espírito Irmão X. 8.
ed. Rio de Janeiro: FEB,
1963. cap. 28 |