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Matéria publicada no Jornal
Mundo Espírita - abril/2003
Ela viera das terras
distantes de Cesaréia de
Filipe, na Decápole. Era
considerada impura, pois há
12 anos um fluxo sangüíneo
não a deixava. Recorrera a
todos os métodos possíveis,
na ânsia da cura.
Estivera com os sacerdotes,
deixara-se exorcizar,
submetera-se aos preceitos
da Lei, que não lhe
aliviaram em coisa alguma.
Buscara médicos locais e de
outras paragens,
submetendo-se ainda uma vez
a experiências que somente a
maltrataram.
Provavelmente, obrigaram-na
a sentar-se na bifurcação de
uma rua, com um copo na mão,
enquanto lhe faziam grande
alarido e depois gritavam,
de repente, às suas costas.
Ou quiçá a fizeram ingerir
um grão de cevada encontrado
no excremento de um macho
branco.
Tudo inútil. Seu mal era
considerado um sinal de
desventura, um castigo
divino. Mesmo entre os seus,
ela se sentia constrangida.
Os olhares lhe falavam do
quanto a sua presença era
incômoda. Detestavam-na,
essa era a verdade.
Os recursos financeiros
foram minguando e após ter
gasto tudo que possuía, ela
resolvera buscar a próspera
Cafarnaum, na esperança de
encontrar um remédio ainda
não experimentado, um médico
ainda não consultado.
Ela chegou à cidade no
momento em que o profeta de
Nazaré acabava de regressar
de Gadara e saltara nas
alvejantes praias de
Cafarnaum. O povo se
aglutinara ao seu redor. Na
noite anterior, uma
formidável tormenta sacudira
as águas de Genesaré. Todos
acorriam para ver o Rabi que
sobrevivera à tempestade,
com seus discípulos.
Todos desejavam ouvir as
peripécias daquela noite de
borrasca da boca dos
apóstolos, ainda atônitos
por tudo que acontecera.
Jesus falara aos ventos e
dera ordens à tempestade.
Pelos caminhos, ela ouvira
falar dAquele homem, pela
boca dos que tinham sido
abençoados por Suas mãos e
haviam recuperado a saúde.
Um cavalheiro distinto se
aproxima. É o chefe da
Sinagoga local. Chama-se
Jairo e roga a presença de
Jesus em sua casa, para
curar sua filha. A multidão,
sempre ávida de novidades,
acompanha Jesus, Jairo, os
apóstolos.
O povo se comprime. Todos
almejam chegar mais perto. A
figura de Jesus se destaca
com sua túnica tecida sem
costura, seu manto
quadrangular de borlas
tecidas em fios de linho. As
pessoas falam, rogam,
comentam. Ele mantém a
serenidade. Seus passos são
firmes e seguem o pai
amargurado pela enfermidade
da filha.
A mulher tenta se aproximar
dEle. O coração parece lhe
saltar do peito. Quanto
almejou aquele momento!
Contudo, agora, a voz
parecia lhe morrer na
garganta. O que dizer-Lhe?
Como falar da sua desdita,
expondo-se, em meio a tanta
gente?
Ela já fora tão humilhada.
As marcas da problemática
orgânica lhe denunciavam a
enfermidade. Estava
descarnada, anêmica.
Ela acreditava nEle. Parecia
sentir que uma força
extraordinária se desprendia
dEle. Todo Ele era grandeza.
Almejava gritar, pedir
socorro, tocá-lO. Isto:
tocá-lO seria suficiente
para que se curasse.
Então, numa rua estreita,
enquanto a multidão se
adensava cada vez mais, ela
aproximou-se e por trás,
alongou o braço esquálido e
lhe tocou as vestes com a
ponta dos dedos.
Maravilha! O sangue
estancou. A dor se foi. Uma
sensação estranha a dominou.
Sentiu-se renovada. Foram
alguns segundos de êxtase.
Logo, a voz dEle se destacou
na multidão:
- Quem me tocou?
Os discípulos lhe dizem que
é impossível saber, pois
todos o apertam, comprimem.
Como saber quem O tocou?
- Alguém me tocou, insiste
Ele, porque senti que saiu
de mim uma virtude.
Seu segredo fora descoberto.
Ela se atira aos pés dEle e
confessa:
- Fui eu, Senhor. Guardava a
certeza que, em tocando-Te
as vestes, recuperaria a
saúde.
Jesus a envolve em Seu olhar
e a sossega:
- Filha, vai em paz. A fé te
salvou. Fica livre do teu
mal!
Lágrimas de júbilo a tomam.
Os mais próximos lhe
indagam, curiosos, desejando
saber o que aconteceu. Ele
se vai, enquanto ela
permanece ali, imóvel.
Passados alguns dias, ela
voltou ao seu lar, do outro
lado do mar. Os que a haviam
conhecido anteriormente,
querem os detalhes da cura e
ela não se cansa de repetir
seu encontro singular.
No entanto, se recuperara a
saúde do corpo, perdera a
paz do espírito. Tudo em sua
intimidade lhe dizia que ela
deveria retornar para
ouvi-lO, plenificar-se de
Luz. Ele era o Enviado.
Despediu-se dos amigos, dos
parentes e retornou.
Seguiu-O por toda parte, nas
cidadezinhas próximas, na
orla do mar, alimentando o
espírito com as palavras
dEle, que eram fonte de
Vida.
Então, Ele foi preso. Às
horas de angústia da
incerteza do destino dEle,
se seguiu a cruel subida até
à colina da Caveira. Sob o
peso do madeiro que carrega,
enfraquecido por não ter se
alimentado desde a noite
anterior e pelas longas
horas de flagelação, Ele
cai.
Ela não se contém. Burla a
vigilância dos soldados e
corre-Lhe ao encontro. Com
uma toalha branca que
trazia, envolve-Lhe a face
ensangüentada e dorida.
Quando a retira, nela estava
estampado o rosto dEle,
tingido pelo sangue.
Ele a olha "demoradamente,
naquele átimo de minuto. Os
lábios entreabertos nada
dizem. Ela ouve, porém, no
imo Sua voz, como antes:
- Vai em paz! Lembrar-me-ei
de ti..."
Antigas tradições cristãs
dizem que essa mulher se
chamava Serápia e que, a
partir desse episódio, ficou
conhecida como Verônica, que
quer dizer: verdadeira
imagem.
Um dos Evangelhos apócrifos,
"Atos de Pilatos", informa
que seu nome seria Berenice.
Serápia, Verônica ou
Berenice – que importa? O
que ressalta é o exemplo de
gratidão que se permite
externar. Ela acompanha o
Mestre, na Sua caminhada
dolorosa, rompe o cordão de
isolamento, afrontando a
soldadesca, tudo para limpar
o rosto Daquele que um dia a
envolvera em Seu olhar
amoroso, desejando Paz.
Ele lhe retribui o gesto,
deixando impresso Seu
semblante na toalha
alvinitente.
Verônica é uma das mulheres,
dentre tantas, que,
reconhecida pela atenção do
Mestre, O acompanha a todo
lugar, bebendo da Sua
sabedoria e formando como
que uma coroa humana de
profunda gratidão ao Seu
redor.
Bibliografia:
01.FRANCO, Divaldo Pereira.
A mulher hemorroíssa.
In:___. As primícias do
reino. Pelo espírito Amélia
Rodrigues. Rio de Janeiro:
Sabedoria, 1967.
02.ROHDEN, Huberto. A
hemorroíssa. In:___. Jesus
Nazareno. 6. ed. São Paulo:
União Cultural. v. I, pt. 2.
03.ROPS, Daniel. Quando o
canto do pássaro se cala.
In:___. A vida quotidiana na
Palestina ao tempo de Jesus.
Livros do Brasil. cap. 12,
item IV. |