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"Auta de Souza
nasceu em
Macaíba, pequena
cidade do Rio
Grande do Norte,
em 12 de
setembro de
1876; educou-se
no colégio “São
Vicente de
Paula”, em
Pernambuco, sob
a direção de
religiosas
francesas; e
faleceu em 7 de
fevereiro de
1901, na cidade
de Natal. Uma
biografia
simples como os
seus versos e o
seu coração...
Ela não conheceu
os obstáculos
que encheram de
tormento a
existência de
Marcelline
Desborde-Valmore.
Desde muito
cedo, porém,
sentiu todo o
horror da morte.
Aos quatorze
anos, quando lhe
apareceram os
primeiros
sintomas do mal
que a vitimou,
não havia senão
sombras em seu
espírito; era já
órfã de pai e
mãe, tendo
assistido ao
espetáculo
inesquecível do
aniquilamento de
um irmão
devorado pelas
chamas, numa
noite de
assombro.
Assim, desde a
infância, o
destino lhe
apareceu como um
enigma sem a
possibilidade de
outra decifração
que o luto.
Salvaram-na do
desespero a fé
religiosa e o
resignado
exemplo da
ignorada heroína
para quem
escreveu o
soneto A minha
Avó, publicado
neste volume.
Horto é, pois, a
história de uma
grande dor.
Formou-o a
autora
recordando,
sentindo,
penando.
Em casa, o luto
sucessivo; no
colégio, as
litanias da
Igreja; mais
tarde, no campo,
onde passou o
melhor tempo da
atormentada
existência, a
paisagem triste
do sertão nos
longos meses de
seca, a
compaixão pelos
humildes, cuja
miséria tanto a
comovia, a
saudade dos
diversos lugares
em que esteve em
busca de
melhoras aos
padecimentos
físicos...
Tudo isso
concorreu
muitíssimo para
agravar a
maravilhosa
sensibilidade,
de seu
temperamento de
mulher; e essa
sensibilidade, à
medida que a
doença
aumentava, se ia
tornando mais
profunda,
fazendo de um
ser fragílimo o
intérprete de
inúmeros
corações
desolados.
A primeira
edição do Horto,
publicada em
1900, esgotou-se
em dois meses. O
livro foi
recebido com
elogios pela
melhor crítica
do país;
leram-no os
intelectuais com
avidez; mas a
verdadeira
consagração veio
do povo, que se
apoderou dele
com devoto
carinho,
passando a
repetir muitos
de seus versos
ao pé dos
berços, nos
lares pobres e,
até, nas
igrejas, sob a
forma de
“benditos”
anônimos.
Auta, sem pensar
e sem querer,
reproduzira a
lápis, na chaise
longue onde a
prostrara a
doença, as
emoções mais
íntimas de nossa
gente:
encontrará no
próprio
sofrimento a
expressão exata
do sofrimento
alheio.
E antes de
finar-se ouviu
da boca de
centenas de
infelizes muitos
dos versos que
traçara com os
olhos
lacrimosos, não
raro para
esquecer o
desgosto de se
sentir vencida
em plena
mocidade.
Não teve cultura
literária vasta.
Recordando cenas
da meninice,
vejo-a neste
momento, aos
oito anos,
curvada sobre as
paginas da
História de
Carlos Magno,
outrora muito
popular nas
fazendas do
Norte, livro
cheio de
façanhas
inverossímeis,
sem medida, sem
arte, escrito no
pior dos
estilos, - mas
delicioso para
quem o conheceu
na infância.
Lia-o Auta no
campo, os olhos
ingenuamente
maravilhados,
para o mais
ingênuo dos
auditórios,
composto de
mulheres do povo
e de velhos
escravos, todos
filhos d’esse
formoso sertão
que exerceu em
seu espírito tão
salutar
influência.
Depois, chegou a
vez das
Primaveras, de
Casimiro de
Abreu.
Um pouco mais
tarde, no
colégio, não leu
outra cousa que
os compêndios de
estudo e as
obras de prêmio,
de feição
religiosa e
sentimental.
Nesse tempo, o
seu livro
predileto foi um
romance
profundamente
triste, Tebsima,
episódio
lendário da
primeira
Cruzada.
Ao sair do
internato, onde
aprendera bem as
línguas francesa
e inglesa e
adquirira boas
noções de música
e de desenho,
começou a ler
alguns autores
brasileiros,
especialmente
Gonçalves Dias e
Luiz Murat.
Estes dois
grandes
sonhadores,
porém, não
tiveram ação
decisiva sobre
seu espírito.
Não sei mesmo
como ela, que
detestava a
feitura clássica
de certos
estilos, podia
ler com
satisfação
crescente o
poeta dos
Tymbiras. Nunca
me explicou
também o motivo
por que os
versos
tumultuosos de
Luiz Murat
constituíam
verdadeiro
encanto para a
sua alma tão
meiga, tão cheia
de religiosa
ternura.
Nos últimos
anos, as horas
que podia
dispensar ao
convívio dos
autores,
consagrava-as
aos místicos, a
Th. de Kempis, a
Lamartine, a S.
Theresa de
Jesus. A estes,
associava Marco
Aurélio, cujos
Pensamentos
muito
concorreram para
aumentar a
tolerância e a
simpatia com que
encarava os
seres e as
cousas.
Tal é a história
da sua formação
intelectual.
Pode-se,
entretanto,
dizer sem
exagero que o
sofrimento foi o
seu melhor guia.
A influência das
Irmãs de “São
Vicente de
Paula” é visível
em todo o livro.
O próprio
estilo, simples
e claro desde as
primeiras
poesias,
parece-me um
produto do
esforço das
mestras que lhe
corrigiram os
temas escolares,
com o bom senso
e a medida dos
franceses.
Mas, sem a dor
que lhe
requintou a fé,
Auta certamente
não teria
encontrado a
forma com que
deu cor e relevo
às visões de seu
misticismo.
Assim, o Horto,
em vez de uma
coleção didática
de salmos
católicos,
encerra, com a
tristeza de um
pobre ser
cruelmente
ferido pelo
destino,
perturbado em
face do mistério
da vida, a
queixa universal
do sofrimento
humano.
Nos últimos
versos, nota-se
a estranha
serenidade
espiritual a que
chegou nos
derradeiros
dias, inspirando
aos que a
visitavam a mais
religiosa
veneração.
Via-se-lhe,
então, a alma
através os olhos
brilhantes sem
torturas, sem
lágrimas.
Naquele corpo
desfeito, tão
leve que uma
criança pudera
conduzir, havia
agora um coração
resignado de
mártir, sentindo
profundamente o
nada da vida,
mas sem horror à
morte.
Realizaram-se o
seu desejo:
“Não vês?
Minh’alma é como
a pena branca
“Que o vento
amigo da poeira
arranca
“E vai com ela
assim, de ramo
em ramo,
“Para um ninho
gentil de
gaturamo...
“Leva-me, ó
coração, como
esta pena
“De dor em dor
até à paz
serena.”
A tormenta se
desfizera ao pé
do túmulo; e do
naufrágio em que
se abismou esta
singular
existência,
resta o Horto,
livro de uma
santa."
HENRIQUE
CASTRICIANO
Paris, 4 de
Agosto de 1910.
(Extraida da 3ª
edição do livro
HORTO, 1936)
Auta de Souza
do livro Auta de
Souza
Nasceu em
Macaíba, então
Arraial, depois
cidade do Rio
Grande do Norte
a 12 de setembro
de 1876, era
magrinha,
calada, de pele
clara, um moreno
doce à vista
como veludo ao
tato. Era filha
de ELOI
CASTRICIANO DE
SOUZA,
desencarnado aos
38 anos de idade
e de Dona
HENRIQUETA
RODRIGUES DE
SOUZA,
desencarnada aos
27 anos, ambos
tuberculosos.
Antes dela ter
completado 3
anos ficou órfã
de mãe e aos 4
anos de pai. A
sua existência,
na terra foi
assinalada por
sofrimentos
acerbos. Muito
cedo conheceu a
orfandade e
ainda menina,
aos dez anos,
assistiu a morte
de seu querido
irmão IRINEU
LEÃO RODRIGUES
DE SOUZA,
vitimado pelo
fogo produzido
pela explosão de
um lampião de
querosene, na
noite de 16 de
fevereiro de
1887.
Auta de Souza e
seus quatro
irmãos foram
criados em
Recife no velho
sobrado do
Arraial, na
grande chácara,
pela avó materna
Dona SILVINA
MARIA DA
CONCEIÇÃO DE
PAULA RODRIGUES,
vulgarmente
chamada Dindinha
e seu esposo
FRANCISCO DE
PAULA RODRIGUES,
que desencarnou
quando Auta
tinha 6 anos.
Antes dos 12
anos, foi
matriculada no
Colégio São
Vicente de
Paulo, no bairro
da Estância,
onde recebeu
carinhosa
acolhida por
parte das
religiosas
francesas que o
dirigiam e lhe
ofereceram
primorosa
educação:
Literatura,
Inglês, Música,
Desenho e
aprendeu a
dominar também o
Francês, o que
lhe permitiu ler
no original:
Lamartine,
Victor Hugo,
chateubriand,
Fénelon.
De 1888 a 1890,
a jovem Auta
estuda, recita,
verseja, ajuda
as irmãs do
Colégio,
aprimora a
beleza de sua
fé, na leitura
constante do
Evangelho.
Aos 14 anos,
ainda no
Educandário
Estância, em
1890,
manifestaram-se
os primeiros
sintomas da
enfermidade que
lhe roubou, em
plena juventude,
o viço e foi a
causa de sua
morte, ocorrida
na madrugada de
7 de fevereiro
de 1901 -
Quinta-feira à
uma hora e
quinze minutos,
na cidade de
Natal,
exatamente com
24 anos, 4 meses
e 26 dias de
idade. Os
médicos nada
puderam fazer e
Dindinha
retornou com
todos para a
terra Norte-Rio
Grandense.
Ei-los todos em
Macaíba. Foi
sepultada no
cemitério do
Alecrim e em
1906, seus
restos mortais
foram
transladados
para o jazigo da
família, na
Igreja de Nossa
Senhora da
Conceição, em
Macaíba, sua
terra natal.
O forte
sentimento
religioso e
mesmo a doença
não impediram de
ter uma vida
absolutamente
normal em
sociedade.
Era católica,
mas não submissa
ao clero. Ela
não se macerou,
não sarjou de
cilícios a pele,
não jejuou e
jamais se
enclastou. Era
comunicativa,
alegre, social.
A religiosidade
dela era
profunda,
sincera,
medular, mas não
ascética,
mortificante,
mística. Seu
amor por Jesus
Cristo, ao Anjo
da Guarda, não a
distanciaram de
todos os sonhos
das donzelas:
Amor, lar,
missão maternal.
Com 16 anos, ao
revelar o seu
invulgar talento
poético,
enamorou-se do
jovem Promotor
Público de
Macaíba, João
Leopoldo da
Silva Loureiro,
com a duração
apenas de um ano
e poucos meses.
Dotada de aguda
sensibilidade e
imaginação
ardente dedicava
ao namorado amor
profundo, mas a
tuberculose
progredia e seus
irmãos
convenceram-na a
renunciar. A
separação foi
cruel, mas
apenas para Auta.
O Promotor não
demonstrou a
menor reação....
É verdade que
gostava de
ouvi-la nas
festas caseiras
a declamar com
sua belíssima
voz envolvente,
aveludada e com
ela dançar
quadrilhas,
polcas e valsas,
mas não era o
homem indicado
para amar uma
alma tão
delicada e
sonhadora como
Auta de Souza.
Faltava-lhe o
refinamento
espiritual para
perceber o
sentimento que
extravasava
através dos
olhos meigos da
grande Poetisa.
Essa sucessão de
golpes
dolorosos,
marcou
profundamente
sua alma de
mulher,
caracterizada
por uma pureza
cristalina, uma
fé ardente e um
profundo
sentimento de
compaixão pelos
humildes, cuja
miséria tanto a
comovia. Era
vista lendo para
as crianças
pobres, para
humildes
mulheres do povo
ou velhos
escravos, as
páginas simples
e ingênuas da
"História de
Carlos Mágno",
brochura que
corria os
sertões, escrita
ao gosto popular
da época.
A orfandade da
Poetisa ainda
criança, o
desencarne
trágico de seu
irmão, a
moléstia
contagiosa e a
frustração no
amor, esses
quatro fatores
amalgamados à
forte
religiosidade de
Auta, levaram-na
a compor uma
obra poética
singular na
História da
Literatura
Brasileira
"Horto", seu
único livro, é
um cântico de
dor, mas,
também, de fé
cristã. A
primeira edição
do Horto saiu do
prelo em 20 de
Junho de 1900.
O sofrimento
veio burilar a
sua inata
sensibilidade,
que transbordou
em versos
comovidos e
ternos, ora
ardentes, ora
tristes,
lavrados à
sombra da
enfermidade, no
cenário
desolador do
sertão de sua
terra.
Em 14 de
novembro de
1936, houve a
instalação da
Academia
Norte-Rio
Grandense de
Letras, com a
poltrona XX,
dedicada a Auta
de Souza.
Livre do corpo,
totalmente
desgastado pela
enfermidade,
Auta de Souza,
irradiando luz
própria, lúcida
e gloriosa alçou
vôo em direção à
Espiritualidade
Maior. Mas a
compaixão que
sempre sentira
pêlos sofredores
fez com que a
poetisa em
companhia de
outros Espíritos
caridosos,
visitasse,
constantemente a
crosta da terra.
Foi através de
Chico Xavier,
que ela, pela
primeira vez
revelou sua
identidade,
transmitindo
suas poesias
enfeixadas em
1932, na
primeira edição
do "PARNASO DE
ALÉM TÚMULO",
lançado pela
Federação
Espírita
Brasileira.
Em sua
existência
física, Auta de
Souza foi a AVE
CATIVA que
cantou seu
anseio de
liberdade; o
coração
resignado que
buscou no Cristo
o consolo das
bem-aventuranças
prometidas aos
aflitos da
terra. Além do
túmulo, é o
pássaro liberto
e feliz que,
tornado ao ninho
dos antigos
infortúnios, vem
trazer aos
homens a
mensagem de
bondade e
esperança, o
apelo à FÉ e a
CARIDADE,
indicando o rumo
certo para a
conquista da
verdadeira vida.
A Campanha de
Fraternidade
Auta de Souza,
idealizada pelo
companheiro
Nympho de Paula
Corrêa e
aprovada em 3 de
fevereiro de
1953, pelo
Departamento de
Assistência
Social da
Federação
Espírita do
Estado de São
Paulo, então
dirigido pelo
saudoso confrade
José Gonçalves
Pereira, é uma
bela homenagem à
nossa querida
Poetisa, AUTA DE
SOUZA. |