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Conta
Esopo (século VI a.C.), que um homem
extremamente zeloso de seus haveres, decidido
a resguardar-se de qualquer prejuízo,
tomou radical providência:
Vendeu todos os seus haveres e comprou vários
quilos de ouro que fundiu numa única
barra.
Em seguida, enterrou-a em mata cerrada.
À noite, solitário e esquivo,
contemplava, em êxtase, seu tesouro.
Algo de tio Patinhas, o milionário
sovina das histórias em quadrinhos,
que se deleita mergulhando num tanque cheio
de moedas.
Um dia foi seguido por amigo do alheio.
Quando se afastou, após a adoração
rotineira, o gatuno desenterrou o ouro e
escafedeu-se.
O avarento quase enlouqueceu, tamanho o
seu desespero.
Um vizinho, ao saber do fato, ponderou:
–
Não sei por que está tão
transtornado! Afinal, se no lugar do ouro
estivesse uma pedra seria a mesma coisa.
Aquela riqueza não tinha nenhuma
serventia para você…
***
Difícil encontrar na atualidade pessoas
dispostas a enterrar seus haveres.
Raras os têm sobrando.
Além disso, seria correr risco inútil.
As instituições financeiras
guardam com segurança nosso dinheiro.
Até produzem rendimentos, sem surpresas
desagradáveis, salvo quando têm
o mau gosto de quebrar, por incompetência
ou corrupção.
Não obstante, muita gente costuma
enterrar um bem muito mais precioso, uma
riqueza inestimável – a existência.
Se nos dermos ao trabalho de analisar a
jornada terrestre, com suas abençoadas
possibilidades de edificação,
perceberemos como é valiosa.
Traz-nos inúmeros benefícios:
•
O esquecimento do passado ajuda-nos a superar
paixões e fixações
que precipitaram nossos fracassos.
•
A convivência com desafetos transmutados
em familiares favorece retificações
e reconciliações indispensáveis.
•
O contato com companheiros do pretérito,
nas experiências do lar e na atividade
social, estreita os laços de afetividade.
•
A armadura de carne inibe as percepções
espirituais, minimizando a influência
de adversários desencarnados.
•
As necessidades do corpo induzem à
bênção do trabalho.
•
O esforço pela subsistência
desenvolve a inteligência.
•
As limitações físicas
refreiam os impulsos inferiores.
•
As enfermidades depuram a alma.
•
As lutas fortalecem a vontade.
•
A morte impõe oportuno balanço
existencial, sinalizando onde estamos, na
jornada evolutiva.
***
No
entanto, à semelhança do unha-de-fome
de Esopo, muita gente troca o tesouro das
oportunidades de edificação
por uma barra luzente de efêmeras
realizações, cuidando apenas
de seus interesses, de seus negócios,
de suas ambições…
Quando tudo corre bem, há os que
se deslumbram com essa “riqueza”,
como aquele lavrador da passagem evangélica:
Construiu grandes celeiros, guardou neles
toda a sua produção e proclamou
para si mesmo (Lucas, 12:18-20):
–
Tens em depósito muitos bens para
muitos anos; descansa, come, bebe, regala-te…
Mas Deus lhe disse:
– Insensato, esta noite pedirão
a tua alma; e o que tens preparado, para
quem será?
Exatamente
assim acontece com aquele que se apega às
ilusões humanas, buscando realizações
de brilho efêmero.
Um dia vem o indefectível ladrão
– a morte –, e lhe rouba o corpo.
Indigente na vida espiritual, desespera-se.
Chora, inconformado.
Recusa-se a aceitar a nova situação.
Esopo lhe diria:
–
Por que o lamento? Houvesse você estagiado
nas entranhas de uma pedra e o resultado
seria quase o mesmo. A experiência
humana pouco lhe serviu!
Livro Luzes no Caminho
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