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Era
indolente por vocação.
Infenso a qualquer iniciativa, vivia miseravelmente.
Ainda que não faltassem oportunidades
de melhorar de vida, logo tratava de afastar-se
da “tentação”.
Para dar-lhe uma lição, no
empenho por “acordá-lo”,
algumas pessoas decidiram simular seu enterro,
comunicando-lhe:
– Já que você não
se dispõe a mexer-se, melhor que
vá para debaixo da terra.
E o enfiaram num caixão e seguiram
para o cemitério, sem que nosso herói
reagisse, guardando a habitual indiferença.
Durante o cortejo, um transeunte perguntou
quem era o “defunto”.
– É um preguiçoso que
não serve para viver. Não
tem onde morar, nem o que comer...
Compadecendo-se, o desconhecido ofereceu:
– Se o problema é de comida,
posso ajudar. Darei um saco de arroz para
sustentá-lo.
O “falecido”, que tudo ouvia,
levantou a tampa do caixão:
– Em casca ou limpo?
– Em casca.
– Então, pode seguir com o
enterro.
***
Pois é, amigo leitor, a indolência
é, realmente, a “morte em vida”.
O indivíduo perde a iniciativa e
passa a vegetar, alheio à dinâmica
da existência, sinônimo de movimento.
Fundamental que entremos em compasso, até
para que não atrofiemos os músculos,
perturbemos os neurônios ou comprometamos
o coração, como o demonstra
hoje, claramente, a ciência médica.
Raros os que não se envolvem com
a ociosidade, em alguma fase da vida, exprimindo
tendências bem típicas do estágio
evolutivo em que se situa a humanidade.
A própria encarnação,
o vestir do escafandro de carne para o mergulho
na matéria densa, é um dos
recursos usados por Deus para fazer com
que o Espírito mexa-se.
Submetidos a um corpo que deve ser sustentado
e protegido, sob a égide do instinto
de conservação, vemo-nos na
contingência de “dar duro”,
para atender às suas necessidades.
Se permanecêssemos indefinidamente
no mundo espiritual, onde ninguém
morre de fome ou frio e se sobrevive sem
abrigo, tenderíamos a estacionar.
Essa necessidade está bem definida
na fantasia bíblica, quando Jeová
diz a Adão que deveria ganhar o pão
de cada dia com o suor do rosto.
Abençoado suor, que nos liberta da
inércia.
***
Uma fase crítica, nesse particular,
diz respeito à chamada terceira idade,
depois dos cinqüenta, no outono da
existência.
Não raro, situação
financeira estável, garantido o sustento
diário pelos proventos de aposentadoria,
as pessoas entendem que podem desfrutar
as benesses da ociosidade.
Lembrando a história que abriu estes
comentários, podemos afirmar que
num estágio dessa natureza, quando
perdemos a disposição de aprender,
de produzir para a sociedade, de crescer
em conhecimento, de lutar contra as imperfeições,
só servimos mesmo para… morrer.
Imagino que Deus nos dá tempo limitado
na Terra, justamente porque há uma
tendência para nos acomodarmos, caindo
num marca-passo espiritual.
Aprendemos com a Doutrina Espírita
que não há retrocesso. Ninguém
retrograda nos caminhos da evolução,
mas raros fogem ao estacionamento, a partir
de determinada idade, acomodando-se às
próprias mazelas.
Então, vem a morte, um choque evolutivo
de alta voltagem, a agitar nossa alma.
Somos projetados no mundo espiritual, onde
se faz a aferição da jornada
humana, com a avaliação de
méritos e deméritos a determinarem
em que região estagiaremos e a natureza
das novas experiências, sempre objetivando
nosso crescimento.
Com o tempo, tendemos a nos acomodar.
Vem o choque reencarnatório.
Mais alguns decênios, novo acomodamento.
Vem o choque desencarnatório.
Assim, de choque em choque, habilitamo-nos
superar a tendência ao dulce far niente,
para assumirmos as responsabilidades de
filhos de Deus, chamados a colaborar com
o Nosso Pai na obra da Criação.
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