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Durante
três décadas, participei de
um grupo de visitação a hospitais.
Levávamos uma palavra amiga, particularmente
aos enfermos solitários, tão
carentes de calor humano.
Freqüentemente, topávamos com
pessoas vitimadas por facadas, tiros, socos,
pontapés…
Jamais encontramos alguém disposto
a assumir alguma culpa. Eram sempre vítimas.
Iam passando…
Apartavam uma briga…
Sofreram um assalto…
O mesmo ocorre nas prisões.
Sentenciados proclamam-se injustiçados,
vítimas da polícia, dos promotores
e magistrados…
Acontece com os piores facínoras.
Criminosos notórios por suas maldades,
do tipo Adolf Hitler, Joseph Stalin, Sadam
Husseim, Slobodan Milosevic, Osama bin Laden,
responsáveis por atrocidades abomináveis,
julgam-se pessoas maravilhosas, nobres idealistas,
santos missionários!
Trazem o “desconfiômetro”
desligado.
Possuem uma visão glamourizada de
si mesmos.
Enxergam o mundo por lentes egocêntricas,
incapazes de reconhecer suas mazelas e a
perversidade que lhes marca o comportamento.
***
Não
se trata de uma deficiência isolada,
mas de uma tendência globalizada.
Como o egoísmo é a inspiração
das ações humanas, tendemos
a ver o mundo pela ótica de nossos
desejos e interesses, comprometendo-nos
em desvios de comportamento e desajustes,
sem nos darmos conta disso.
•
O viciado não reconhece sua dependência.
•
O adúltero reclama insatisfação
conjugal.
•
O assaltante alega lutar pela sobrevivência.
•
O maledicente imagina defender a verdade.
•
O usurário pretende ser econômico.
•
O ditador julga-se um missionário.
Falta-lhes
um referencial, algo que lhes permita distinguir
o certo do errado, o justo do injusto…
***
O
Evangelho é, sem dúvida, o
código celeste que sinaliza a melhor
atitude, o comportamento ideal.
Há um problema:
Tendemos a examina-lo também pela
ótica de nossos interesses e limitações
distorcendo-o ao sabor de nossas conveniências.
Um pregador exaltava o perdão como
virtude cristã essencial à
nossa estabilidade íntima.
E citava Jesus, em Mateus, 5:39:
–
Eu, porém vos digo: Não resistais
ao mal que vos queiram fazer. Se alguém
vos bater na face direita, oferecei-lhe
a outra.
Mal
terminara a leitura, um homem aproximou-se
e deu-lhe valente tapa no rosto.
Sentindo-se testado, nosso herói
moveu lentamente a cabeça, oferecendo-lhe
a outra face.
O impertinente o esbofeteou novamente.
Eis que se deu o inusitado: o pregador pulou
em cima do agressor, derrubando-o e desferindo-lhe
uma saraivada de socos e pontapés.
Contido e questionado pelos fiéis,
explicou:
– O Evangelho manda que ofereçamos
a outra face a quem nos bate. O que acontece
depois, se ele reincide, é por nossa
conta! Entendi que aquele atrevido precisava
de uma lição.
Levando a orientação evangélica
ao pé da letra, segundo suas conveniências,
não entendeu que Jesus usava uma
imagem forte para demonstrar que jamais
devemos revidar ao mal com o mal.
Razoável que contenhamos o agressor,
mas inconcebível, à luz do
Evangelho, que desçamos à
agressividade.
***
A
Doutrina Espírita situa-se como poderosa
lente, permitindo-nos uma visão mais
clara e incisiva dos valores evangélicos.
Nas manifestações dos chamados
Espíritos sofredores, em reuniões
mediúnicas, vemos o que nos aguarda
na espiritualidade.
Por mais parcial e benevolente seja o julgamento
que fazemos de nós mesmos, é
impossível nos furtarmos à
comparação com aqueles que
nos antecederam.
Colhendo as conseqüências de
mazelas e imperfeições que
cultivaram na Terra, representam o nosso
futuro, o que nos espera, se insistirmos
em idêntico comportamento, induzindo-nos
a uma providência elementar e altamente
salutar:
Ligar
o desconfiômetro!
Livro
Para Rir e Refletir
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