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Mateus,
18:21-35
No terceiro ano de apostolado, que seria
o último, Jesus peregrinou pela Peréia,
uma das regiões administrativas da
Palestina. Solo árido, era menos
populosa que a Judéia, a Galiléia
e a Samaria.
Os evangelistas não fazem referências
específicas às cidades visitadas,
mas, como sempre, significativas lições
foram ministradas.
Ainda em Cafarnaum, na Galiléia,
o Mestre abordou um de seus temas prediletos
– o perdão.
Em benefício da causa, os cristãos
não deveriam guardar ressentimentos,
mágoas, rancores…
Falava, em certo momento, a respeito do
assunto, quando Simão Pedro fez a
famosa pergunta:
–
Senhor, quantas vezes terei de perdoar ao
meu irmão que pecar contra mim? Será
até sete vezes?
Segundo
a orientação rabínica,
razoável perdoar as ofensas até
três vezes.
Revelando ter assimilado os novos princípios,
Pedro, num rasgo de boa vontade, cogitou
de elevar esse limite.
Jesus foi além:
–
Não te digo sete vezes, mas até
setenta vezes sete.
Evocava o Velho Testamento.
Quando Caim matou seu irmão Abel,
por inveja, Jeová, por castigo, o
condenou a vagar sem destino.
…Fugitivo
e errante serás pela terra (Gênesis:
4-12).
Caim lamuriou-se.
Se partisse sozinho, sem proteção,
poderia ser morto por algum desconhecido.
Temor infundado.
Se existiam apenas Adão e Eva; se
os dois tiveram como filhos Abel e Caim;
se Caim matou Abel, quem poderia ameaçá-lo?
Surpreendentemente, Jeová não
levou em consideração esse
disparate e proclamou que se alguém
o matasse seria castigado até sete
vezes.
Caim partiu.
Posteriormente, em outra dessas incríveis
contradições do Velho Testamento,
encontrou uma mulher e com ela se casou.
Depois fundou uma cidade.
Uma cidade!
De onde vieram seus habitantes?
De onde veio a mulher de Caim?
Seriam tripulantes de um disco voador?
Os primeiros extraterrestres?
***
Caim deixou uma descendência.
Seu tataraneto, Lameque, era casado com
duas mulheres, Ada e Zilá, numa dessas
liberalidades de Jeová com os homens.
Podiam ter tantas mulheres quantas pudessem
sustentar, o que não era difícil
naqueles tempos recuados. Não havia
indústria da moda, nem cosméticos…
Lameque era um indivíduo de maus
bofes, desses que não levam desaforo
para casa. Certa feita, disse às
esposas (Gênesis, 4:23-24):
…Matei
um homem por me ferir, e um rapaz por me
pisar. Se Caim seria vingado sete vezes,
com certeza Lameque o será setenta
vezes sete.
O troglodita exprimia o espírito
de sua época. Espírito de
revide, de não levar desaforo para
casa, institucionalizado na expressão
olho por olho, dente por dente, atribuída
a Moisés (Êxodo, 21:24).
Jesus inverte sua proposta e inaugura um
novo tempo, com o perdoar setenta vezes
sete, que equivale a perdoar sempre.
***
Os
Lameques da vida não passam de pessoas
com tendência para fazer meleca.
No livro Ação e Reação,
de André Luiz, psicografia de Francisco
Cândido Xavier, capítulo\ IX,
diz Silas, dedicado médico da espiritualidade:
–
A ação do mal pode ser rápida,
mas ninguém sabe quanto tempo exigirá
o serviço da reação,
indispensável ao restabelecimento
da harmonia soberana da vida, quebrada por
nossas atitudes contrárias ao bem...
A bobeira de um minuto pode resultar em
decênios de sofrimentos para consertar
os estragos que fazemos em nossa biografia
espiritual, quando não exercitamos
o perdão.
Dois condôminos de um prédio
discutiram sobre vagas na garagem coletiva.
Irritaram-se. Gritaram. Ofenderam-se, com
a inconseqüência de quem fala
o que pensa, sem pensar no que fala.
Como não poderia faltar, cada qual
“homenageou” a genitora do outro,
atribuindo-lhe aquela profissão pouco
recomendável.
Finalmente, o mais forte agrediu o mais
fraco.
O mais fraco sacou uma arma e fuzilou o
mais forte.
Resultado:
Um para o cemitério, outro para a
prisão.
Ambos comprometeram-se infantilmente.
O morto retornou prematuramente à
vida espiritual, interrompendo seus compromissos,
situando-se em lamentáveis desajustes.
O assassino assumiu débitos cujo
resgate lhe exigirá muitas lágrimas
e atribulações.
Isso sem falar nas famílias desamparadas…
E se cônjuge e filhos se comprometerem
em vícios e desajustes, favorecidos
pela ausência do chefe da casa, tudo
isso lhes será debitado.
Não raro, esses desentendimentos
geram insidiosas obsessões. O morto
transforma-se em verdugo, empolgado pelo
desejo de fazer justiça com as próprias
mãos.
E ninguém pode prever até
onde irão os furiosos combates espirituais
entre os dois desafetos, um na Terra, outro
no Além.
Tudo isso por quê?
Porque erraram na escolha do verbo de suas
ações.
Usaram o verbo revidar.
O certo seria o verbo relevar.
Relevar sempre!
Revidar jamais!
Lição elementar, nos ensinos
de Jesus.
***
No livro No Mundo Maior, de André
Luiz, psicografia de Francisco Cândido
Xavier, capítulo X, diz Calderaro,
sábio mentor:
–
O ódio, diariamente extermina criaturas
no mundo, com intensidade e eficiência
mais arrasadoras que as de todos os canhões
da Terra troando a uma vez. É mais
poderoso, entre os homens, para complicar
os problemas e destruir a paz, que todas
guerras conhecidas pela Humanidade no transcurso
dos séculos.
Essas
judiciosas observações não
dizem respeito apenas às pessoas
que revidam ofensas.
Falam também àquelas que,
tendo vontade de esganar um ofensor, engolem
a própria ira. Bebem o veneno destilado
pelo ódio, candidatando-se ao desajuste.
O ressentimento mina nossas energias e enfraquece
os mecanismos imunológicos.
Há uma quantidade imensa de males
físicos e psíquicos resultantes
do auto-envenenamento, quando cultivamos
mágoas no lar, na rua, no local de
trabalho…
O perdão evita que nos nutramos de
nosso próprio veneno.
***
Há alguns equívocos.
As pessoas afirmam perdoar. No entanto,
há sempre o “mas”, anunciando
variadas formas de revide.
Rancor:
• Perdôo, mas não esqueço
o mal que me fez!
Condenação:
• Perdôo, mas não quero
vê-lo nunca mais!
Menosprezo:
• Perdôo, mas lamento ter me
envolvido com esse infeliz, sem eira nem
beira!
Maldição:
• Perdôo, mas Deus há
de castigá-lo!
Pretensão:
• Perdôo, mas antes lhe direi
umas verdades!
Em
qualquer dessas alternativas destilamos
o ressentimento que nos envenena.
***
Melhor
mesmo é não ter que perdoar.
Não é difícil.
A fórmula mágica chama-se
compreensão.
Ninguém é intrinsecamente
mau. Somos todos filhos de Deus. Não
podemos exigir das pessoas mais do que podem
dar. Há mais fragilidade que intencionalidade
nos prejuízos que nos causam.
A compreensão dispensa o perdão.
Quem compreende não se ofende.
Era o que Jesus fazia.
Livro
Setenta Vezes Sete
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