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João, 4:4-26
Judéia, Galiléia e Samaria
eram províncias da
Palestina, sob domínio de
Roma.
Na maior parte do tempo
Jesus estaria na Galiléia,
em cidades como Betsaída,
Cafarnaum, Caná, Corazim,
Naim e Nazaré.
Os discípulos de Jesus,
membros do colégio
apostólico, eram quase todos
galileus, homens do povo,
humildes pescadores.
Na Judéia ficava Jerusalém.
Estavam também Jericó,
Belém, Betânia, cidades
menores, cenários de suas
lições e exemplos.
Na Samaria Jesus esteve
poucas vezes.
Os samaritanos recebiam seus
compatriotas com
hostilidade.
Sob dominação estrangeira, a
população assimilara ritos e
idéias que repugnavam ao
judaísmo.
Seus habitantes insistiam
que o culto à divindade
devia ser feito no monte
Garizim, onde existira
grande templo, já destruído,
contrariando a orientação
religiosa do país, que
consagrava o templo em
Jerusalém.
Eram filhos da mesma raça
separados por preconceitos e
divergências religiosas,
algo que se repete desde as
culturas mais antigas.
Contradições das mais
lamentáveis no comportamento
humano são os
desentendimentos e lutas
fratricidas sustentados em
nome de Deus, como se o
objetivo do culto fosse a
guerra, não a paz, a
dissensão, não a distensão.
Essa tendência é tão absurda
que ainda hoje há seitas
religiosas que não
consideram filhos de Deus os
que não comungam suas
crenças.
***
Deixando Jerusalém Jesus
permaneceu ainda algum
tempo, semanas talvez, em
pregações pela Judéia. Não
há referências a respeito.
Depois retornou à Galiléia.
Embora existisse um caminho
melhor, ao longo do Rio
Jordão, evitando o contato
com os samaritanos, Jesus
decidiu atravessar a região
hostil porque era-lhe
necessário passar pela
Samaria (João 4:4).
Tinha certamente um
objetivo, algo a fazer.
Já em terra dos samaritanos,
sol abrasador, próprio da
região, sentou-se junto a um
poço, enquanto os discípulos
partiam a procura de
alimento.
Era a hora sexta – explica
João. Perto de meio-dia.
Uma mulher aproximou-se.
Jesus pediu-lhe água.
Percebendo que se tratava de
um galileu, provavelmente
pelo sotaque, ficou
surpresa:
– Como, sendo tu galileu, me
pedes de beber, a mim que
sou mulher samaritana?
Sua observação exprime bem a
animosidade que existia
entre galileus e
samaritanos. Contatos eram
evitados.
Disse Jesus:
– Se conhecesses o dom de
Deus e quem é que te pede
água, tu terias pedido e eu
te daria água viva.
Sem entender a resposta, mas
certamente impressionada com
aquele forasteiro que rompia
arraigados preconceitos, a
mulher comentou:
– Senhor, não tens com que
tires água do poço, que é
fundo. Donde tens, então,
essa água viva? És tu,
porventura, maior do que
nosso pai Jacó, que nos deu
esse poço, do qual bebeu,
assim como seus filhos e
seus rebanhos
Jacó é um dos pais do povo
judeu, portanto ancestral
comum de galileus e
samaritanos. Aquele poço,
ainda hoje existente, teria
sido aberto por ele.
Jesus lhe respondeu:
– Quem bebe desta água
tornará a ter sede, mas quem
beber da água que eu lhe
der, jamais terá sede. Ao
contrário, a água que eu lhe
der se tornará nele uma
fonte a jorrar para a vida
eterna.
Jesus usa aqui um dos seus
recursos prediletos – o
simbolismo, como elemento de
fixação de idéias.
Qual a mais abrasadora sede,
a necessidade maior?
A paz.
É o tempero da vida.
Sem ela fica complicado
viver.
Depressões, angústias,
tensões, temores,
ansiedades, têm origem comum
– a sede de paz.
No propósito de saciá-la, as
pessoas fazem da existência
uma interminável
peregrinação a variados
poços:
• conforto
• poder
• riqueza
• segurança
Mas, de poço em poço, de
experiência em experiência,
constatam que essas águas
não saciam. A sede
permanece, não raro mais
abrasadora – mais inquieto o
coração…
Muitos, ansiosos e
desatinados, buscam águas
enganosas: os vícios. São
poços sedutores. Oferecem
euforia em princípio, mas
cobram alto preço depois,
precipitando-os em
tormentosas perturbações e
desequilíbrios.
***
Somente uma fonte é capaz de
saciar plenamente nossa sede
de paz.
A fonte de água viva
oferecida por Jesus.
Brota, pura e cristalina de
seus ensinamentos, a nos
oferecer uma perspectiva de
vida mais nobre, bela e
digna, marcada pelos valores
do Bem e da Virtude.
Mas há um problema.
Grande número de crentes que
buscam as igrejas, que lêem
o Evangelho, que procuram
Jesus, continuam sedentos.
Estaria Jesus equivocado?
Seria o Evangelho mais um
poço de ilusão?
Obviamente, não!
É apenas um manancial
negligenciado.
O alimento trancado na
despensa é tão inútil quanto
a despensa vazia.
A água na cisterna não sacia
a sede.
O que ocorre é exatamente
isso.
Temos a água, mas falta-nos
a iniciativa de buscá-la.
Afinal, isso implica em
algumas mudanças drásticas
em nossa vida, que nem
sempre estamos dispostos a
efetuar.
Alguns exemplos:
• Perdoar as ofensas.
Como guardar rancor contra
alguém que, não obstante o
mal que nos tenha feito, é
um filho de Deus?
• Superar as ambições.
Quando o dinheiro deixa de
ser parte da existência para
transformar-se em finalidade
dela, comprometemos a
jornada.
• Eliminar o vício.
Cigarros, álcool, drogas,
fazem o céu artificial,
sempre sucedido pelo inferno
das enfermidades e
desajustes.
• Combater os impulsos
agressivos.
Um momento de cólera, um
gesto de agressividade, nos
desajustam por longos
períodos, isto quando não
complicam a vida toda.
• Ajudar o semelhante.
A essência do Evangelho está
no empenho de nos colocarmos
no lugar do próximo para
fazer por ele o que
gostaríamos que fizessem por
nós, em idêntica situação.
Tudo isso implica em
estender a caçamba da
vontade ao fundo do poço,
girar a carretilha da ação
para retirar a água e
exercitar a iniciativa de
sorvê-la.
Resumindo:
É preciso cumprir os
princípios cristãos.
Porém, se não estamos
dispostos a esse esforço,
cultivando a indulgência, a
simplicidade, a virtude, a
brandura e a fraternidade,
permaneceremos sedentos
mesmo diante do abençoado
poço que Jesus nos oferece.
***
A samaritana não entendeu o
alcance do que ouvia.
Pediu, ansiosa:
– Senhor, dá-me dessa água
para que eu não tenha mais
sede, nem precise vir
tirá-la daqui.
Jesus, suave:
– Vai, chama o teu marido e
volta aqui.
Ela, constrangida:
– Senhor, eu não tenho
marido…
Jesus, incisivo:
– Disseste bem, declarando
que não tens marido,
porquanto cinco maridos
tiveste e o que agora tens
não é teu marido.
Não era sua intenção
humilhar a interlocutora.
Apenas demonstrava-lhe que
estava diante de alguém
capaz de desvendar os
mistérios de seu coração.
Impressionada, pediu:
– Senhor, vejo que és
profeta. Dize-me, então:
nossos pais adoraram neste
monte e vós outros dizeis
que em Jerusalém é o lugar
onde se deve adorar.
Momento solene, dos mais
importantes no Evangelho!
Respondendo de forma
magistral o Mestre lança os
fundamentos da verdadeira
adoração:
– …Mulher, crede-me. Virá a
hora em que não será nem
neste monte, nem em
Jerusalém que adorareis o
Pai. Deus é Espírito e em
espírito e verdade é que o
devem adorar os que o
adoram.
Problema fundamental, em
nosso relacionamento com
Deus:
Julgamos que haveremos de
encontrá-lo nos templos
religiosos. Tendemos, então,
a materializar o culto,
prendendo-nos a práticas
exteriores.
O judeu procurava Deus nos
sacrifícios do templo…
O católico procura Deus na
missa…
O protestante procura Deus
no culto…
O hinduista procura Deus
entoando mantras…
O muçulmano procura Deus
repetindo rezas…
O Espírita procura Deus na
reunião mediúnica…
Tudo isso é bom e
edificante, mas deve ser
apenas parte de nosso
empenho de comunhão com a
divindade.
Se nos limitarmos a essas
práticas, confundindo-as com
vivência religiosa,
estaremos esquecendo o
fundamental – o combate às
nossas imperfeições, no
esforço de renovação íntima
que marca a verdadeira
religiosidade.
Para tanto é preciso
procurar Deus em espírito e
verdade.
• Em Espírito:
Trata-se de uma busca
interior, nunca uma prática
exterior.
Deus está dentro de nós!
É preciso que nos
disponhamos a ouvi-lo na
intimidade da consciência.
Para tanto, que haja
silêncio interior.
Que por momentos,
diariamente, num canto
qualquer, onde estejamos a
sós, façamos cessar o
burburinho dos interesses
imediatistas e cultivemos
reflexão, buscando meditar
sobre nossa vida, o que
somos, o que estamos fazendo
na Terra, o que Deus espera
de nós.
• Em verdade:
A adoração só tem valor se
formos fiéis a ela.
Não podemos ser bons
eventualmente, quando as
circunstâncias sejam
favoráveis.
Com infinita paciência, diz
doutrinador espírita, em
sessão mediúnica,
dirigindo-se a um Espírito
obsessor:
– Meu irmão, estamos aqui
para ajudá-lo. Você se
envolveu com o mal por
ignorar certas realidades
que lhe temos mostrado. É
chegada a hora de mudar. O
Senhor lhe concede essa
oportunidade. Somos todos
seus filhos. Ele quer nossa
felicidade e espera por nós.
Não resista aos apelos do
Bem!
O mesmo dirigente depois, ao
lhe dizerem que um garoto
riscou seu automóvel:
– Pivete ordinário! Mau
caráter. Se o pego hei de
esganá-lo. Gente assim
justifica a ação dos grupos
de extermínio. Esses
bandidos devem ser
fuzilados.
Não podemos ser verazes
apenas quando seja
conveniente:
Toca o telefone. O filho
informa.
– Papai, é o prefeito. O
senhor atende?
– Claro, imediatamente!
Pouco depois batem à porta:
– Papai, é um pedinte. Quer
falar com o dono da casa.
– Diga que não estou…
Não podemos ser virtuosos
apenas na aparência.
Em público:
– Os meios de comunicação
estão pervertidos.
Televisão, teatro, cinema,
converteram-se em agentes do
vício. É só sexo, violência,
imoralidade, degradação! É o
fim do mundo! Precisamos
combater essa invasão das
trevas!
Na intimidade:
– Hoje é dia daquele filme
apimentado, no canal de
variedades. Não posso
perder.
É quando cultivamos o bem,
verdade e a virtude em todas
as situações, em todos os
lugares, que testemunhamos a
autenticidade de nossa fé.
Se assim não fazemos estamos
enganando a nós mesmos.
***
Admirada, diz a samaritana:
– Eu sei que vem o Messias
(que se chama o Cristo).
Quando ele vier, nos
explicará tudo.
Jesus anuncia:
– Eu o sou, eu que falo
contigo.
Pela primeira vez fora do
círculo íntimo, Jesus
reportava-se à sua condição
messiânica.
Por que o faria àquela
desconhecida, e ainda
samaritana?
Certamente Jesus viu naquela
mulher promissor potencial
de espiritualidade, não
obstante suas vacilações,
tanto que considerou
necessário atravessar a
Samaria, como se tivesse um
encontro marcado com ela.
Escreve Torres Pastorino, em
A Sabedoria do Evangelho,
volume dois:
Jesus, que nela viu um
espírito de escol, capaz de
penetrar os “mistérios do
Reino”, aproveita a
circunstância para
esclarecê-la; e de tal modo
a impressiona, que sua
evolução daí por diante se
fez quase vertical, pois
quinze séculos após ela se
chamaria Teresa de Ávila, a
única mulher que recebeu, da
igreja católica, o título de
“doutora da igreja”, a
“doutora seráfica”, uma das
maiores místicas que
honraram e dignificaram a
raça humana no ocidente.
***
Todos temos um encontro
marcado com Jesus.
Em algum momento haveremos
de encontrá-lo.
Não sabemos em que tempo –
amanhã, talvez, ou daqui a
séculos…
Mas podemos definir onde.
Será em nossa consciência,
quando, superando a crença
superficial e as rotinas do
culto exterior, nos
dispusermos a fazer uso da
água viva que ele ofereceu à
mulher samaritana.
Livro "Levanta-te!"
Editora CEAC - Bauru |