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Mateus, 13-44
Em várias passagens Jesus
reporta-se ao Reino dos
Céus, ou o Reino de Deus,
ou, simplesmente, O Reino.
São expressões equivalentes.
A teologia medieval concebeu
que Jesus veio instalá-lo, o
que sugere que a Terra não
estava sob a regência
divina.
Permanecia acéfala?
Um tanto estranho, amigo
leitor, se considerarmos que
Deus é o Criador, o Senhor
supremo, presença imanente,
cujas leis têm vigência em
todos os quadrantes do
Universo.
Não encontraremos uma só
galáxia, um só sistema
solar, um só planeta, um só
recanto, por mais remoto,
onde o Todo-Poderoso esteja
ausente.
Ele é a consciência cósmica
do Universo. Permanece em
tudo e em todos. Estamos
mergulhados nas bênçãos
divinas, como peixes no
oceano.
***
Se nascemos no Brasil, se
aqui vivemos, legalmente
somos cidadãos brasileiros.
Mas, sob o ponto de vista
moral, essa cidadania só
será legitimada pelo empenho
em cumprir as leis do país,
o que implica na observância
de nossos deveres perante a
comunidade, zelando por seu
equilíbrio e bem-estar.
Algo semelhante acontece com
o Reino.
Se há um Reino Universal
regido por Deus, somos todos
seus súditos.
Não obstante, isso pouco
significa, se não nos
preocupamos em cumprir o que
o Eterno espera de nós.
Por isso Jesus diz (Lucas,
17:20-21):
O Reino de Deus não vem com
aparência visível. Nem
dirão: Ei-lo aqui! Ou: Ei-lo
ali! Porque o reino de Deus
está dentro de vós.
O problema, então, não é
entrar no Reino. Vivemos
nele.
O problema é o Reino entrar
em nós.
***
Em várias parábolas Jesus
nos diz como alcançar essa
realização.
No tempo antigo não havia
Bancos para depositar bens
amoedados; então, as pessoas
os escondiam em terrenos
isolados, de sua
propriedade.
Não raro, esses tesouros se
perdiam pelo falecimento do
proprietário. Quem os
encontrasse podia entrar na
posse deles, desde que
comprasse as respectivas
glebas.
Havia pessoas que se
especializavam nessa
lucrativa atividade,
caçadores de tesouros, que
ainda hoje povoam o
imaginário popular.
Jesus usa essa imagem para
nos contar sugestiva e breve
parábola.
O Reino dos Céus é
semelhante a um tesouro
escondido num campo.
Um homem o encontra e
esconde-o novamente.
Feliz, vende tudo o que tem
e compra aquele campo.
O Reino seria aquele estado
de paz, de tranqüilidade e
alegria, no pleno
cumprimento das leis
divinas, habilitando-nos a
desfrutar as bênçãos de
Deus.
No simbolismo evangélico,
situa-se como um tesouro
oculto em recôndita região
de nossa consciência, no
solo de nossas cogitações
existenciais.
Custa caro. Para sua
aquisição, que equivale à
posse de nós mesmos,
imperioso nos desfaçamos de
inúmeros bens, entre aspas,
porquanto mais atrapalham do
que ajudam.
São elefantes brancos.
***
No antigo reino de Sião,
atual Tailândia, o raro
elefante branco era animal
sagrado.
Quando o rei queria punir
alguém, oferecia-lhe um. O
súdito sentia-se honrado,
mas logo percebia tratar-se
de um “presente de grego”.
Deveria dispensar
sofisticados cuidados com o
animal. Alimentá-lo com
iguarias caras, colocar-lhe
enfeites, ter empregados
para cuidar dele…
Acabava arruinado.
Algo semelhante ocorre em
nossa vida.
Há elefantes brancos em
nosso caminho.
Temos satisfação com eles,
em princípio, mas logo
percebemos que nos causam
prejuízos imensos.
Alguns deles:
• Ambição
Riqueza, poder, destaque
social, prestígio,
constituem o anseio de
muitos.
O ambicioso só tem olhos
para aquelas realizações.
Toma gosto pelos bens
materiais que, sendo apenas
parte da vida, convertem-se
para ele em finalidade dela.
Deixa de ser dono de seu
dinheiro.
Situa-se escravo dele.
Rico materialmente, mendigo
de paz.
Parafraseando Jesus, podemos
dizer que é mais fácil esse
elefante branco passar pelo
fundo de uma agulha do que
seu proprietário entrar no
Reino.
• Vício
Em princípio, oferece o Céu.
O fumo tranqüiliza.
O álcool desinibe.
As drogas produzem euforia.
Mas é céu artificial,
precário, que nos leva,
invariavelmente, ao inferno
da dependência.
Enquanto o usuário está sob
seu efeito é ótimo.
Logo, porém, o corpo cobra
novas doses, submetendo-o a
angústias e tensões
terríveis.
Assim, oscila entre o céu e
o inferno.
Cada vez menos céu; cada vez
mais inferno, à medida que
se amplia a dependência. E
nele se instala de vez,
quando retorna ao plano
espiritual, antes do tempo,
expulso do próprio corpo que
destruiu.
Em terrível destrambelho,
sofre horrivelmente, em
longos e dolorosos estágios
em regiões lúgubres e
trevosas, habitadas por
companheiros de infortúnio.
Ao reencarnar, os desajustes
provocados em seu corpo
espiritual se refletirão na
nova estrutura física, dando
origem a males variados,
dolorosos, angustiantes, mas
necessários.
Funcionam como válvulas de
escoamento das impurezas de
que se impregnou, ao mesmo
tempo em que o ajudam a
superar entranhados
condicionamentos, que
fatalmente o induziriam a
retomar o vício.
Se o viciado tivesse a
mínima noção do futuro
dantesco que o espera,
ficaria horrorizado.
Haveria de lutar com todas
as forças de sua alma para
livrar-se desse
comprometedor elefante
branco.
• Sexo.
Dádiva divina, é por
intermédio dele que entramos
na vida terrestre, além de
favorecer gratificante
momento de intimidade entre
o homem e a mulher.
Entretanto, vivemos tempos
perigosos, de liberdade
sexual confundida com
libertinagem. O sexo deixou
de ser parte do amor para
transformar-se no amor por
inteiro.
Casais que mal se conhecem
falam em “fazer amor”,
pretendendo uma comunhão
sexual sem compromisso, em
lamentável promiscuidade.
É um tremendo elefante
branco!
Oferece euforia em
princípio, mas cobra muita
inquietação depois, e perene
insatisfação.
Com a troca constante de
parceiros e a busca
desenfreada de prazer, o
indivíduo cai no desvairo
sexual, envolvendo-se em
comprometedoras perversões.
• Paixão
Fixado em alguém, empolgado
pela comunhão carnal, o
apaixonado estende as raízes
de sua estabilidade física e
psíquica no objeto de seus
desejos e passa a viver em
função dele.
Se a relação não dá certo e
vem o rompimento, é uma
tragédia. Suicídios, crimes
passionais, loucuras
variadas, são mera
decorrência.
Quando o amor deixa de ser
um ato de doação, rebaixado
ao mero desejo de posse, em
que pretendemos que o ser
amado submeta-se aos nossos
caprichos, transforma-se em
voraz elefante branco que
nos exaure e desajusta.
***
Não nos tornaremos santos do
dia para a noite, campeões
do Evangelho, apóstolos do
Bem, mesmo porque a Natureza
não dá saltos.
Consideremos, porém, em
nosso próprio benefício, que
é preciso avaliar se não
estamos sustentando
insaciáveis elefantes
brancos, que nos empobrecem.
Com eles fica impossível o
cultivo de aspirações
superiores, no solo sagrado
do coração, para a conquista
do almejado tesouro divino.
Livro Histórias que Trazem
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