|
O
recinto do tribunal estava lotado, não
tanto pela importância dos crimes
que seriam julgados, mas pela presença
do prefeito de Nova Iorque, La Guardiã.
Costumava, nessas ocasiões, julgar
casos policiais simples, com decisões
que ficavam famosas pelo seu conteúdo
de sabedoria e originalidade.
Um dos acusados fora pilhado em flagrante,
roubando pão em movimentada padaria.
O homem inspirava compaixão: muito
magro, barba por fazer, roupas em desalinho
– era a própria imagem da miséria!
La Guardiã submeteu-o, solene, ao
interrogatório, consultou as testemunhas
e, após rápida apreciação,
considerou-o culpado, aplicando-lhe a multa
de cinqüenta dólares. A alternativa
seria a prisão. Em seguida, dirigindo-se
à pequena multidão que acompanhava,
atenta, o julgamento, disse, peremptório:
– Quanto aos senhores, estão
todos condenados a pagar meio dólar
cada um, importância que servirá
para liquidar o débito do réu,
restituindo-lhe a liberdade.
E ante a estupefação geral,
acentuou:
– Estão multados por viverem
numa cidade onde um homem é obrigado
a roubar pão para matar a fome!
***
Todos nós, habitantes de qualquer
cidade do Mundo, estamos sujeitos a uma
multa muito mais severa, a uma sanção
muito mais grave – a frustração
dos anseios de felicidade, os desajustes
intermináveis, as crises de angustia
– por vivermos num planeta onde as
palavras fraternidade, bondade, solidariedade,
compaixão, caridade, são
enunciadas como virtudes raras, quando são
apenas elementares deveres de convivência
social, de observância indispensável
ao equilíbrio de qualquer sociedade.
Dizem os Espíritos Superiores que
a felicidade do Céu é socorrer
a infelicidade da Terra.
Diríamos que somente na medida em
que estivermos dispostos a socorrer a infelicidade
da Terra é que estaremos a caminho
da felicidade do Céu.
Não há alternativa. Podemos
nos isolar da multidão aflita e sofredora,
mas jamais estaremos bem, porquanto a infelicidade
é o clima crônico dos que se
fecham em si mesmos.
Mãos servindo, mãos trabalhando
em benefício do próximo, são
antenas que estendemos para a sintonia com
as fontes da Vida e a captação
das bênçãos de Deus!
Livro
"Atravessando a Rua"
|